2.10.04

-Sabes quando tudo cai?
- Brilhante?
- Sim. Tu sabes...
- O tempo corre, contrariado, para trás, a uma velocidade estonteante. Para que tudo se encaixe. Como se cortasses os pedaços da fita que não interessam.
- Se calhar podias mandar emoldurar. Como aqueles quadros enormes com o rosto das divas...
- E só ficou o sabor das tardes... agarrado a mim. Não há um único entardecer em que não me lembre.
- É uma questão de sincronização.
- E eu demoro a encaixar-me nas coisas, sabes?
- E se agarrasses em pedacinhos distantes da fita e os tentasses colar?
- Não me seria propício fazer do passado uma ficção.
(Silêncio)

30.9.04

Funeral

O meu mundo era tão radioso Por entre os moínhos de xisto. Hoje, surgem-me em sonhos, muito negros. A minha casa inteira. O corpo. Os ventos do Açor a uivar pelas ruas, no Inverno que não cheguei a conhecer. De madrugada, a serra espreguiçava-se no meu vestido de menina feliz e eu coleccionava os pedaços de xisto que a terra me trazia. A voz do meu avô João, por entre cadernos amarelos.Não sei porque quis queimar, tantas vezes, linhas e memórias antigas.
Aninho-me outra vez na quantidade absurda de cobertores que coloquei, propositadamente, na cama (faz frio, aqui). Engano a aflição da insónia com a certeza de que se te pintar um pouco mais em pensamento, posso ambicionar trazer-te para junto de mim (identidade ou representação. Tenho tanto frio). Podias vir acariciar-me os sonhos. Isto aqui até é bonito. Há meses, era insuportável habitar por entre estas paredes. Gosto de pensar, repetidamente, nas pinceladas de alegria que o teu amor trouxe à minha existência. Só que longe de ti tenho tanto frio! Há pouco fui à janela. Creio já te ter dito que daqui se vê, nitidamente, a Covilhã. Um fiozinho de luzes tristes a descer, de forma vertiginosa, pela encosta escura da Serra. E quis saber que luz abraçar. Já não faz sentido estar longe de ti. 24 horas é demasiado tempo. Uma noite sem os teus braços só sabe a amargo e ao arrastar pesado das horas. A ansiedade pesada da insónia. (E faz frio, já tinha dito?). Redesenho-te no azul frio das paredes e às vezes parece que sinto o teu corpo, deitado, atrás do meu, num lânguido abraço. Conheço-te os passos, os gestos e decorei as linhas da tua mão. De vez em quando, usas um tom cerimonial e colocas-te a meus pés. Dizes que me amas. E eu só penso em te prender para sempre. Toco-te no rosto, levemente, olho-te nos olhos e selo o juramento que invento em surdina com um beijo. É nesses momentos que o coração esquece o sobresalto. Perder-te seria o meu fim. (Morria gelada, certamente). Digo tantas vezes "Obrigado". Procuro o meu tom mais sentido e sério, porque me deste a vida, pela segunda vez. Porque hoje quero fazer ainda mais planos para sonhar. Como antes, quando era pequenina, e inventava o teu beijo. Sonhar é cultivar no fundo da alma a certeza de que é possível. E se antes me debatia com a tristeza e o medo do escuro, de noite, hoje fico a observar-te longas horas e conheço a coragem. Dás-me a vontade de atribuir ordem a todas as coisas que vivem dentro de mim. Tenho-me dedicado à catalogação e arquivo, por ordem alfabética, de um monte de papeladas antigas e cheias de pó. Coisas da razão. É desta forma que me sinto eu a dizer que é em ti me encontro. Sei quem sou por me saber embrenhada em ti. O sono não chega. Tive medo da lua quando fui lá fora e até o vento decidiu uivar em Setembro. E eu só penso na falta que fazes, aqui. Os meus pensamentos, incabados quase sempre, convergem, enquanto o tempo teima em se arrastatar morosamente, para a fotografia do teus sorriso- quando os teus olhos ficam pequeninos e brilhantes e eu estremeço de tanta certeza de te querer para sempre! Noto frequentemente que quando entramos num café somos muito observados, num misto de inveja e admiração (ou talvez esteja a alucinar com o frio). Esperando que não te apercebas, gosto de te pegar na mão e ficar em silêncio, munida do meu melhor sorriso, para que nos saibam guardar as suspeitas do nosso amor. Talvez reparem que a minha massa se misturou, irremediavelmente, com a tua. Talvez lhes grite que já não importa qualquer tipo de procura ou aspiração superior. Tenho tantas palavras de amor para dar ao mundo! Insistes em dizer que me amas mais. E eu gosto de ouvir, é claro. Mas o que tu não sabes é que, sem querer, acabas por mentir, porque, na verdade, não existe mais amor para além disto que sinto. E hás-de ser tu. Quanto a mim, estou destinada a desenhar o meu amor por ti, enquanto fixo os terríveis ponteiros do relógio na tua ausência, até deixar de correr sangue nas minhas veias. E quando morrer, hei-de encontrar maneira de comprar o meu coração e as memórias, sempre vivas, do nosso amor e ordenarei que sejam guardadas numa caixinha perfumada com jasmim para toda a eternidade.

29.9.04

" Quem me ama tem de adivinhar, não pode ficar à espera de ordens"

28.9.04

Monday, September 27. 2004

Sinto-me bonita. O que é que o sentimento de culpa pode fazer às pessoas? Levas a mal se ficar sufocada, por uns breves instantes? Tudo me sabe a poesia, ultimamente. O coração adormece em sobressalto e por não escrever, desafino. Quando acordo, de manhã, as rimas já fugiram e lembro-me sempre de que só sei escrever sobre coisas tristes, em forma de tragédia. Invento mil vezes o meu destino escuro e assino a minha própria execução. Conheço os contornes à máquina assassina onde me hei-de, um dia, sentar. Se te pedisse o mundo, tu davas-mo? É que assim poupávamos muitas inquietações. Não que eu queira, verdadeiramente, o mundo. Mas é tão confortável...

20.9.04

Nada me incomoda e repugna mais do que a pobreza de espírito e a falta de horizontes. E hoje estou grávida de tanta ansiedade. Apetece-me partir a cara a todos os pobres desgraçados com que tenho, inevitavelmente, de me cruzar no jogo da complacência sem respostas. Um dos meus maiores anseios é desfazer os óculos ao meu vizinho, estilhaçá-los bem no centro da cara e virar costas, logo depois, sem ter de me justificar. Porque isso implicaria um longo jogo de palavras obscenas. Não me sinto, mesmo, inclinada a fazê-lo.
Qualquer semelhança com outra realidade já vivida pode não ser coincidência.

18.9.04

Nas entranhas misturam-se as necessidades naturais do corpo. Tenho fome e mastigo um cigarro e ainda hei-de morrer com os pulmões atolados em raiva. A imagem dela. O fantasma dela. Pode ser uma ela qualquer. E há momentos em que até nem incomoda, sabes? Tinha prometido a mim mesma que hoje seria um dia feliz e tinha planos para te beijar muito, entrelaçada no meu melhor sorriso. Acabei perdida na imagem corrosiva dela, outra vez. Comeu-me o sorriso. Quando me perguntas porque te amo, reservo-me ao silêncio porque na minha cabeça passeiam-se milhares de sombras de razões demasiado pequeninas. Amo-te porque, subitamente, sou paciente. E consigo ficar horas a ver-te dormir, enquanto desfio um sorriso terno, que desconhecia. Consigo atentar nas mesmas palavras as vezes que me pedires e sinto-as como na primeira vez, sem esforço ou decepção. Nos teus braços tenho menos medo do escuro e dos fantasmas. E acredito que todos os dias sou melhor por te trazer no peito, comigo.

12.9.04


Gestos pequenos como observá-lo, enquanto se dedica às mais triviais tarefas, são o meu mais recente pecado. E a noção de pecado tornou-se, de súbito, apetecível. O perigo é um desafio constante, contido no olhar e no desejo. Por ele era capaz de atravessar o lado escuro da terra. E duvido que me soubesse a sangue o seu abraço, algum dia.

29.7.04

Confissão

Faço planos para matá-la, mas sempre que a morte chega para a levar, abraço-me ao terço, a rezar. E peço perdão.

12.7.04

A mor-te

Pareceu-me aceitável, quando escureceu, tentar voar através da janela e ir beijar-te. Para que te orgulhasses da minha morte.
Podias ser diferente. Podias estar em casa. Podias ter arrancado dois ou três versos de irritação para fora do tempo e do espaço. Podias ter confrontado as linhas com o desespero de não ter para onde ir, não ter o que fazer. Podias aprender a cantar. Podias guardar as defesas num outro espaço, desprovido de qualquer sensibilidade. Podias calar a raiva, tantas vezes e matar, só por matar. Sem arrependimentos, sem escutas prévias, sem passos enfurecidos no meio da madrugada. Que culpa tenho de não saber voar? Podias ser diferente. Hoje apetece-me matar alguém de desprezo e enroscar-me, mais tarde, no teu colo, para que me lambas as feridas e deixem de existir segredos. Tantas mulheres à tua volta assusta-me. Mas não to digo, para que não conheças a arma com que um dia me dás-de matar. Podias ser diferente. Menos descuidada, mais certa do turbilhão em que as veias, há muito, se afogaram.

11.7.04

Gémeos

Namorar com alguém igualzinho a outro alguém é desastroso. Refiro-me, obviamente, aos tão cobiçados gémeos. Encontrar alguém exactamente igual ao nosso mais-que-tudo num Centro Comercial, de mãos dadas com uma loiraça pode ser tenebroso. A seguir ao estalo óbvio vem a pergunta óbvia, acompanhada de um arregalar de olhos: "Mas tu não és o Diogo, pois não?"
Pode acontecer, também, encontrar-se casionalmente o nosso mais-que-tudo a passear docemente na rua, acompanhado de uma doce rapariga. Salta-se para cima do rapaz e, um beijo sem resposta depois, segue-se a pergunta óbvia: "Mas tu não és o Diogo, pois não?". Claro que esta situação requer que se dispenda mais algum tempo, para explicar à pobre namorada da cópia que tudo não passou de um trágico engano e, que na verdade, nunca se tinha visto o namorado antes. "Ou melhor, ver já vi, mas..." Segue-se o estalo óbvio.
Claro que quem lucra com esta situação são os doces gémeos... "Vamos fazer uma troca?" ou "Eu? Com uma loira? Devia ser o meu irmão, és tão tonta!" ou, ainda, "Eu juro que nunca a vi em toda a minha vida! Ela deve ter-me confundido com o meu irmão!". Outra vantagem é poder dividir as tarefas. Digamos que é uma questão de gerir o tempo: "Eh pá, ó Diogo, podes substituir-me hoje com a Rita?... é que estava a pensar sair com uma namorada antiga..."
Um conselho para quem sofre deste mal: gravem uma marca distintiva no original, com um ferro quente, quando suspeitarem de abusos.
Todos os casais acabam por desenvolver uma (in)compreensível relutância e falta de consideração por determinados aspectos da vida social. Até determinado ponto, parece-me aceitável, mas a verdade é que existe sempre, no nosso círculo de amigos e conhecidos, o exemplo extremo desta disfunção, que acaba por irritar mais ainda por ser fruto de uma (des)honesta cumplicidade que os dias vão trazendo. O estado de irritação mais frequente provocado por esta doença social é resultado de horas de infinita espera pelos casais em questão. E enquanto lançamos o olhar de relance para a televisão ou trocamos palavras trivias de café, desesperadas, apercebemo-nos de que um banho não deveria durar 120 minutos. E é então que nos passa pela cabeça a imagem feliz do casal numa troca carinhosa de mimos. "Amorzinho... não deveríamos ir? Eles estão à nossa espera...Pronto está bem, matulãozinho...mais cinco minutos...". Todos nós acabamos por passar, algumas vezes, por este incompreensível e desastroso sintoma, quando o amor nos torna cegos, o que acaba por irritar mais ainda. Da próxima vez, sugiro que o meu amigo que se queixa particularmente deste tipo de situações pegue numa maçã do amor envenenada e a coloque na soleira da porta dos pombinhos... com um bilhete, claro: "Não se atrasem para o velório!"

10.7.04

Parece-me que fugiste, outra vez. Sim, amor. Entendo. Se calhar, quiseste matar-me, porque sabes que o meu corpo é o teu sangue e o meu sangue é o teu corpo agarrado a mim. Amo-te, sim. Não, não é indiferença. Quero-te tanto, tanto! A merda da vida já não faz sentido sem o teu beijo e o teu olhar no meu. Ontem acordaste-me no início do meu sono estranhamente prolongado e disseste-me que não és metade do que eu penso. Ficaste a ver-me dormir a noite inteira, quase aposto... e eu odeio quando pousas os teus olhos nos meus, sem que os meus possam saber... é uma questão de estar desprevenida. O dia tem 24 horas e eu odeio-te 25 vezes numa hora. Odeio a tua perfeição absurda, odeio-te de cima a baixo e só penso em matar-te. Não consigo dizer-te o que quero para nós. Mas agrada-me, particularmente, a ideia de ser dona do teu reino. Veludos. Cetins. Fotografias de viagens. Canções nocturnas. Riso. Partilha. Na verdade, sei que te hei-de amar desta forma por muito tempo. Hás-de ser tu a partir-me o coração. Porque o teu mundo é imenso e eu não te hei-de bastar. Hás-de chamar "exercícios de estilo" à falta de afectividade que os dias hão-de acabar por trazer. Tornar-me-ei sozinha e azeda, por tua graça.
Um destes dias, fui a uma noite de Fados, daquelas típicas da Covilhã, em que há um ambiente agradável por ser tudo muito a brincar. Fomos no carro da Fadista-Mor (aquela que se faz a mim descaradamente). Não sabíamos muito bem para onde íamos, falaram-nos num bairro perto da Vila do Carvalho. Deparámo-nos com uma sala merdenta e meia dúzia de fulanos aciganados, com as feições carcomidas pelo ar da Serra. Afinal, há mais terra para além do fim do mundo que é a cidade. Cantou-se o fado, por entre facadas e palavras menos dignas ( o que acabou por ser positivo- permitiu-nos não pagar a conta). Na nossa mesa de gala, sentou-se um Fadista convidado. Francamente, o senhor canta mal, mas acaba-se por convidá-lo sempre, ninguém sabe bem porquê. Tem uma presunção irritante por meia dúzia de versos repetidos que traz na carteira e acaba por nos fazer bem estar perante tremendo palhaço. O sujeito resolveu levar a Imaculada Esposa para a pseudo-noite de Fados. Meia hora depois, o fumo do tabaco incomodava-a "horrivelmente". Apagaram-se os cigarros, momentaneamente. Uma hora depois, o barulho partia-lhe os delicados ouvidos. Apagaram-se as vozes e os murmúrios. Mais tarde, o Senhor Poeta cantou uma canção sobre o amor desfeito e uma amante. Doía-lhe a cabeça, "irremediavelmente"- o maridinho levou-a a casa, amorosamente. Rejubilámos com a ideia. Quando regressou, já tinha perdido a extracção da série do loto que lhe havia custado uma pequena fortuna.

Coisas de Vizinhos

O meu vizinho é louco, mas no pior sentido que se pode atribuir à palavra. Ultimamente, tem-me ocorrido com uma frequência assustadora, a vontade cega de o atirar, em surdina, pelas escadas do prédio abaixo. Filho de um ex-combatente da guerra, que trabalhou anos como enfermeiro num hospital psiquiátrico e de uma mulherzinha muito baixinha e gorda, cheia de queixumes e dona de uma voz fininha e estridente, o meu vizinho talvez não tenha culpa de ser, assim, palerma. Mas a verdade é que o é. E hei-de atirá-lo pelas escadas abaixo. Espero que não sobreviva, caso contrário a minha vida complica-se, mas acredito que se lhe disser que foi sem querer, ele acaba por desculpar e aceitar a minha distracção. O pai do meu vizinho fuma três maços de tabaco por dia, dois deles exclusivamente no elevador, e conta-se que perdeu um grupo grande de amigos na guerra. Foram comidos por crocodilos, depois de uma ponte ter cedido. Diz-se, também, que ele assistiu ao sucedido da margem do rio. E é assim que a vizinhança acaba por lhe perdoar algumas extravagâncias, mas eu acho que ele só tem que dar graças a Deus por não ter sido comido, também. Mais valia ter lá ficado... Já me lembrei, muitas vezes, de me fazer de desentendida e colocar um crocodilo empalhado no elevador, de manhã. Pode ser que se engasgue com o fumo e acabe por morrer de forma silenciosa, de preferência, porque eu gosto de dormir até tarde.

8.7.04

Para que nunca me esqueça da traição. E do dia em que lhe contaste os meus segredos.

Se desceres mais depressa, escapas-te dos olhares indiscretos da encosta. Ontem também me irritei aqui. Irrito-me mais ainda, hoje. Espero cruzar-me com um carro qualquer, no momento em que olho para os dois lados, para atravessar a estrada. Sempre a mesma rua vazia. Mais abaixo, há pessoas. Sempre diferentes, só eu sou parva o suficiente para passar aqui duas vezes à mesma hora. Não tenho paciência para isto. Esqueci-me dos comprimidos. Tenta não te irritar com a ideia, por favor! Pânico agora não, concentra-te a descer... Como é que me pude esquecer dos comprimidos? Mas também não vou precisar deles. Amanhã acordo cedo para tomar. Senão, irrito-me com facilidade. Os mesmos dois cães rafeiros à minha espera. Apetece-me pontapeá-los e ficar sentada na soleira da porta a vê-los flutuar pela calçada descendente, até se estatelarem no chão, muitos metros mais à frente. Sangue e carne no meio da noite. Tens medo que te mordam? São tão estranhos! Vadios, é o que são! Metem nojo. Olho de esguia para os bichos meio-mortos, enquanto enfio a chave na fechadura - nunca decoro... será esta a merda da chave?- Nem se mexem, os rafeiros!. Mas ouvi-os ladrar, na outra noite. A mesma dos passos e da água a correr. Afinal é a outra chave. Basta um empurrão para abrir a porta. Merda de porta! Vais estar à minha espera, de mãos nos bolsos com um sorriso e um beijo. E eu, irritada. Pronta para te dar um tiro e para te rosnar, cheia de indiferença. A culpa é da descida. Sempre tive problemas nos ouvidos. Faz-me mal o ar da noite. Podias mexer-te, de vez em quando. Não me beijes assim... eu até gosto. Já não sei onde meti a merda da arma. Sempre tive problemas com armas e com guerras. No outro dia até sonhei com o holocausto e tudo! Abraçar-te é uma boa ideia. Não sei onde estava com a cabeça quando me esqueci dos comprimidos. Ficaram ao pé do cristal chinês que parti sem querer e tive que pagar, na loja pindérica do centro da cidade. Malditos chineses, estão em todo lado! Sim, amo-te. Mas penso sempre noutra coisa qualquer. Não pensas, também, em outras coisas? Podias tirar aquelas fotografias da gaveta, se faz favor? Ai, os comprimidos! Não gosto daquela do barco e do cão. Ela é tão mais bonita que eu. Parece enfeitada de estrelas quando sorri. As minhas fotografias estão na parede, as dela estão na gaveta, mas ela tem aquele brilho indefeso e tu pensas nela, que eu sei. Vocês não alimentam aqueles cães rafeiros, pois não? Não saem daqui da porta... Não me deixes aqui sozinha. Obrigado por teres arrumado o quarto. Está tudo bem, sim. Amo-te. Para quem cantavas ontem, enquanto eu dormia? Que merda de irresponsabilidade tem sido a nossa? Agora ando para aqui a pensar nos conselhos da minha mãe e não descanso enquanto não tiver a certeza. É melhor não dizer nada. Não quero parecer neurótica. A porra dos comprimidos em casa! Sim, estou bem, estou bem. Gostei da rapariga que foi ver o quarto. Podes mostrar-te interessado no que te digo? Não sirvo só para estar aninhada no teu colo... Desculpa... Falta de afectividade? Não... eu amo-te... Beijas-me?

De um romance que urge inventar

"Tens de perceber quem são e porque fazem correr as linhas"
Quando ela falava dos romances de que gostava, sentia uma ponta de inveja dos personagens, sobretudo dos masculinos. Muitas vezes, deixava-se levar por universos negros, mais do que devia, e ele lamentava não ter asas para voar por sobre a loucura. No dia em que se deixaram e o seu primeiro amor terminou, jogado por entre palavras confusas, quis lamentar a perda, mas em vão. Palavras como "irresponsabilidade" ou " espaço" e "tempo" pareciam-lhe demasiado para quem tão pouco tinha vivido. Muitas noites depois, porém, recordava-lhe o cheiro doce a morangos e a voz quieta e mansa. Pouco importavam as carícias, valia mais o riso dela e o luar e as cumplicidades e as estrelas. Não ficou surpreendido por tê-la perdido para o Pedro. A relação de amizade que eles mantinham, muito antes de a conhecer, sempre o incomodou. Poucas vezes estavam juntos, ou presentes, mas havia um brilho no olhar dela quando se referia a ele. As palavras que trocavam e que ele invejava. Os trilhos que haviam percorrido e ele nunca tinha visto. A admiração que ela lhe guardava, num lugar altivo e inacessível. Não julgava era que fosse tão de súbito. E não conseguiu conter o despeito, por algum tempo. Evitava-a, trocava o olhar quando, inevitavelmente, acabavam por se cruzar. E guardava os personagens dos romances que ela inventava, durante a noite. Habituara-se também a eles e adivinhava-lhes finais trágicos, que ela imediatamente refutava. "Tens de perceber quem são e porque fazem correr as linhas". A sua primeira curiosidade foi experimentar a cama de outra mulher, comparar o sabor de outra pele. Faltavam candidatas, é certo, mas cedo se apercebeu de que era uma questão de esforço. E no dia em que os viu passar, aos dois, felizes, e lhe encontrou, a ela, um brilho nos olhos que há meses não conseguira fazer despertar, acabou deitado na cama de Paula, com uma estranha sensação de vazio e alheamento. A pele e o odor eram diferentes, mas os lençóis pareciam-lhe mais cuidados. Agradava-lhe a desarrumação do espaço e o segredo com que se deitara, ali, no meio do silêncio.
Joga o teu jogo, que eu jogo o meu. Dissimular não é batota, é defesa. Enterro todo o amor que sinto, num lugar onde ninguém o possa encontrar e defendo-me... ponho-me à escuta, por entre os gritos das aves nocturnas, à espera de uma canção que venha de ti. Ontem eu adormeci e tu sentaste-te à janela e cantaste uma canção triste qualquer. Uma carícia e dois murmúrios dormentes depois, tinhas-te perdido. Um abraço e três suspiros a seguir, li-te nos olhos que a canção era para ter voado, como um pombo-correio, minuciosamente treinada, para uma porta qualquer... Leio-te muitas verdades nos olhos e quando suspiras "amo-te" por entre um abraço demorado tento esconder e esquecer e jogar. Tenho medo de perder. De te perder. Entranhaste-te em mim. Continuo a lançar os dados, na esperança absurda da sorte que nunca chegou. Afogo-me no desejo dos teus braços e avanço duas casas. Sussuro-te palavras ao ouvido e caio na ratoeira, recuo três postos e fico quieta, com medo de jogar outra vez.