30.6.08

Vai.

Voa.
Tua vida será uma quimera florida
de sonho e poesia.

Tua estrela há-de brilhar
por sobre as águas
de um cruzeiro.

Ergue-te ao vento,
Enxerga.
Faz da sorte um vaso de barro
E guarda-o do mundo,
a cantar, numa prece infinta.

Vai.
Encosta-te ao vento.
Sê filho do sonho
do mar das estrelas
Corteja tuas mulheres
Ama o teu jardim

Abre-te ao mundo
aos néons das cidades
que hás-de ter

Sossega, depois.
Porque o mundo fez-te mundo
E do mundo nasceu a verdade.

28.6.08

Espiritismo - II

A doutrina espírita é uma corrente de pensamento — nascida em meados do século XIX — que se estruturou a partir de diálogos estabelecidos entre o pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) e o que ele e muitos pesquisadores da época defendiam tratar-se de espíritos de pessoas falecidas, que se manifestavam através de diversos médiuns.

Caracteriza-se pelo ideal de compreensão da realidade mediante a integração entre as três formas clássicas de conhecimento: a ciência, a filosofia e a religião. Segundo Allan Kardec, cada uma delas, se tomada isoladamente, tende a conduzir a excessos de cepticismo, negação ou fanatismo.
Assim, a doutrina espírita propõe-se a estabelecer um diálogo entre as três formas de conhecimento, com vista à obtenção de uma forma original, que a um só tempo fosse mais abrangente e profunda, de compreender a realidade.

A base doutrinária é o "Livro dos Espíritos", a primeira das chamadas obras básicas escritas por Kardec (A "Codificação espírita" é constituída por cinco livros básico). N' "O Livro dos Espíritos", consta o resultado preliminar dos diálogos estabelecidos por Allan Kardec em diversas reuniões mediúnicas com espíritos "desencarnados". A obra é dividida em 1019 tópicos no estilo pergunta–resposta, ordenados didaticamente pelo pedagogo. As questões levantadas no livro serviram de base para os demais livros que compõem a "Codificação".A doutrina espírita tem inspiração cristã, apesar das concepções teológicas bem diferenciadas no que diz respeito a conceitos como divindade, natureza humana, salvação, graça e destino. Para os espíritas, Jesus Cristo é o espírito mais elevado que conhecemos em toda a história da Terra, bem como o modelo de conduta para o auto-aperfeiçoamento humano.

Espiritismo - I

O termo "espiritismo" (do francês"espiritisme") surgiu como um neologismo, mais precisamente um "porte-manteau", criado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de "Allan Kardec", para nomear o corpo de idéias por ele sistematizadas , inicialmente n' "O Livro dos Espíritos" (1857).

Contudo, a utilização de raízes oriundas da língua viva para compor a palavra ("spirit": espírito + "isme": doutrina), que, se por um lado foi um expediente a que Kardec recorreu para facilitar a difusão do novo conjunto de idéias, por outro fez com que o termo fosse rapidamente incorporado ao uso quotidiano para designar tudo o que dizia respeito à comunicação com os espíritos.
Assim, por "espiritismo" muitos entendem, hoje, as várias doutrinas religiosas e/ou filosóficas que crêem na sobrevivência do espírito à morte do corpo, e, principalmente, na possibilidade de se comunicar ordinariamente com ele.
O espiritismo, de um modo geral, fundamenta-se nos seguintes pontos:
- O homem é um espírito temporariamente ligado a um corpo (para Kardec esta ligação é feita através de uma interface que denomina de perispírito, um envoltório semimaterial);
- A alma é o espírito enquanto ligada ao corpo;
- O espírito, compreendido como individualidade inteligente da Criação, é imortal;
- A reencarnação é o processo natural de aperfeiçoamento dos espíritos;
- Este aperfeiçoamento, através das reencarnações (vidas sucessivas), está ligado a uma Lei de Causa e Efeito, segundo a qual recebemos na medida do que causamos (bondade e/ou maldade);
- Os espíritos encarnados ("vivos") e os espíritos desencarnados ("mortos") podem comunicar-se através da mediunidade;
- A Terra não é o único planeta com vida inteligente (pluralidade dos mundos habitados).

25.6.08

«...não há mais metafísica no mundo senão chocolates»

Soubesses tu que as horas passam morosas e pesadas deste lado da cidade!
(A última teia do diabo)

No meu corpo, trejeitos e pedaços gigantes do teu corpo. O teu coração enforcado no meu. Soubesse eu que o teu beijo era o meu beijo e as tuas mãos o começo de um universo sem fim!

Doce respirar das tuas entranhas, embrenhadas na palidez dos dias: esta é uma estória sem princípio nem fim. Não há formúlas geométricas, equações de terceiro grau ou silogismos complicados. É a história de duas peles a dançar em uníssono, escondidas no silêncio estereofónico de uma noite qualquer.

A tua lua, a minha lua.

A doce melodia de um fio de água a verter para o infinito. A tua voz encostada ao meu ouvido. Encostada ao meu pescoço. Absorta no cântico ritmado do meu coração. A tua voz misturada com o coro das estrelas. A tua voz escrita na história em versos e cantos da minha inquietude. A tua voz no vazio da solidão. A tua voz desenhada nas paredes do meu quarto, esquartejada três quarteirões depois do ecoponto, estilhaçada debaixo das rodas de um carro na curva apertada que o mundo faz antes da linha do horizonte. A tua voz dentro de um copo, misturada com qualquer coisa alcoólica que nos salva a vida, ainda que por breves instantes. A tua voz dentro de mim, dispersa em mim, entornada em mim, embrulhada em mim.

Não há metafísica alguma na vida. Somos prisioneiros irremediáveis da sina austera do nosso próprio coração.

19.6.08

Playlist: Música portuguesa de sempre

Intemporais, marcantes e orgulhosamente portuguesas: Da beleza inatingível do amor nas vozes de Maria Guinot, Carlos do Carmo ou Simone de Oliveira aos primórdios do rock português com os Trabalhores do Comércio, António Variações, Rádio Macau, Taxi ou Heróis do Mar. A pop que marcou uma época: Ban, Carlos Paião. Os êxitos dos Jáfumega e Duo Ouro Negro. A música de intervenção de Carlos Paredes e José Afonso.

Falta, é certo, o riso brejeiro das varinas, consagrado no Fado, a canção portuguesa por excelência. A verdade é que é impossível resumir a grandiosidade da música nacional em meia dúzia de canções. No entanto, e porque "recordar é viver", ficam 15 músicas que fizeram história.

1. Estrela da tarde, Carlos do Carmo;
2. Silêncio e tanta gente, Maria Guinot;
3. Pó de arroz, Carlos Paião;
4. Queda do Império, Vitorino;
5. Esta balada que te dou, Armando Gama;
6. Dias atlânticos, Ban;
7. Estou além, António Variações;
8. Amor, Heróis do Mar;
9. Latin' América, Jafu'mega;
10. Chiclete, Taxi;
11. Chamem a polícia, Trabalhadores do Comércio;
12. Vou levar-te comigo, Duo Ouro Negro;
13. Bom Dia Lisboa, Rádio Macau;
14. Vejam bem, José Afonso;
15. Variações em Ré Maior, Carlos Paredes;

16.6.08

Six Feet Under - Episódio sete, terceira série

Brenda e Nate

-Posso dizer-te uma coisa?
- Claro.
- Não quero deixar-te numa posição esquisita...
- Já estou numa posição esquisita. Todaa minha vida estive numa posição esquisita.
- Tive saudades tuas, durante esta situação.
- Também tive saudades tuas. Não é que não saiba o quanto a nossa relação me fez mudar, o quanto me acordaste, como pessoa. Não estaria onde estou hoje, se não te tivesse conhecido. Não usaria fio dental todos os dias.
- Continuas a fazer isso?
- Depois de cada refeição.
- Também me mudou.
- Sim?
- És a primeira pessoa que perdi e que realmente me custou alguma coisa. É por isso que nunca mais tive ninguém.
- Ninguém?
- É demasiado assustador... A ideia de estragar tudo outra vez...
- Hás-de encontrar alguém.
- Isso não é solução. Sabes o que acho?
- Sobre o quê?
- Não sei... Sobre a vida.
- O quê?
- Acho que é tudo uma questão de timming. Acho que o timming é tudo.
- Acho que talvez tenhas razão.

15.6.08

Memória - I



Festival Eurovisão da Canção de 1976.
O poema é de José Carlos Ary dos Santos. A voz emprestada por Carlos do Carmo. "Estrela da tarde" é uma canção que rasga os limites do belo.
Na verdade, gosto de passar a tarde de domingo em frente à RTP Memória. Gosto de Portugal, do Fado. Das histórias de varinas brejeiras e de caravelas corajosas. Dos acordes doces dos Madredeus, das roupas de antigamente. Da memória de uma Mouraria em que, por infortúnio do destino, não cresci. Dos relatos de antigamente.

Do tempo em que ainda se contavam histórias.

No fundo, gostava de ter nascido antes.

14.6.08

Tributo à alma estilhaçada - os 120 anos sobre o nascimento de Pessoa

A Mediunidade de Fernando Pessoa

Pese embora o facto de Fernando Pessoa ser encarado, frequentemente, pelos seus muitos biógrafos, como um poeta eminentemente racional, a vertente espírita é extremamente forte no seu percurso e, consequentemente nos seus escritos, desde a juventude.
Na verdade, desde muito jovem que o poeta experimentou sensações que considerava inexplicáveis e que o levariam, mais tarde, a um estudo feito pela razão.
Conta o irmão de Pessoa que, não raras vezes, este tinha visões, ao espelho, que não correspondiam a ele próprio, mas a outras pessoas. Seria esta uma projecção infantil dos futuros heterónimos, "outros-ele"?
Também desde a sua juventude, o poeta tinha amigos ficcionados, imaginários, que o ajudavam a superar as dificuldades de deixar de ser “o menino de sua mãe”, de ter de mudar constantemente de casa e de não saber com certeza qual seria o seu futuro.
Seja como for, e começando pela mediunidade em Fernando Pessoa, o melhor documento que nos chegou como testemunho dessa vertente, é uma carta que ele escreve à Tia Anica em 24/06/1916. Nela, o poeta diz que a partir de Março de 1916 começou a ter experiências de médium, ou seja, de condutor de energias que não deste mundo.
Como que previsivelmente, a mediunidade revela-se, em Fernando Pessoa, através da modalidade da escrita automática. O autor conta que, vindo da Brasileira um dia, parou na sua secretária e começa a escrever “comunicações”, muitas das vezes incompreensíveis ou apenas banais, mas assinadas com outros nomes.

A sua primeira experiência terá surgido com o espírito do seu Tio Manuel da Cunha. Outro exemplo de mediunidade acontece quando o seu melhor amigo Sá-Carneiro (então em Paris) sofre de uma grande depressão - que o levaria mais tarde ao suicídio. Pessoa diz sentir tudo, como se fosse com ele mesmo, em Lisboa.
Relata, também à Tia Anica, uma instância de visão astral (vê a sua aura no espelho) e visão etérea (observa as costelas de um sujeito, na Brasileira, através do casaco e da pele).
É certo que se estava no princípio do século e que por toda a Europa o Ocultismo e a Mediunidade estavam na moda como nunca, mas Fernando Pessoa preferia, ainda assim, entender as suas capacidades como um “chamamento de um mestre superior”, um chamamento “para uma missão”. O Mestre Desconhecido, que aparece referido em outras ocasiões, é uma “desculpa” plausível para o crescente isolamento do poeta face ao mundo exterior. É que ele encara a sua missão como "fazedor" de mitos, revelador de mistérios, como uma missão mais alta do que a própria vida, mas justificada como um sacrifício advindo do seu destino irrenunciável. Claro que tudo isto pode ser apenas uma justificação racional para um desespero e uma solidão crescentes, que o poeta sentia cada vez mais como um drama que era impossível de superar senão pela sua inteligência e criatividade.
Se aceitasse que estava sozinho, que não tinha um futuro, bases seguras para amar alguém, para achar segurança na família e nos amigos, seguramente Fernando Pessoa contemplaria o suicídio, o desespero. Porém, ele absorve a ideia de um espírito de missão, em que é fundamental completar a sua “obra”, escrever cada vez mais, e cada vez mais sem medo, mais profundamente.

É também certo o interesse de Pessoa por religiões para além da Cristã. Sobretudo é conhecido o interesse na Escola Teosófica de Madame Blavatsky, uma imigrante Russa que, nos Estados Unidos, congrega ideias de variadas religiões numa amálgama que começa o que mais tarde se conhecerá como Movimento Ocultista. Porém, em Fernando Pessoa, o Ocultismo é mais do que apenas a Mediunidade.
Isto porque Pessoa foi, sobretudo, um poeta simbólico e é através dos símbolos que ele soube aproximar-se melhor dos mistérios ocultos da vida e da morte. A "Mensagem" é um poema simbólico e ocultista. Aliás, muitos dos poemas mais conhecidos do poeta são simbólicos.
António Quadros, na obra "Fernando Pessoa – vida, personalidade e génio", diz-nos que o poeta tentou aceder ao conhecimento oculto de três maneiras: como gnósico, pela intuição e experiência sensível - ou seja, pelas experiências sensíveis da mediunidade; como sófico - como intelectual, pelas suas capacidades de análise e de raciocínio - e, finalmente, como iniciático, ou seja, seguindo antigos ensinamentos das ordens secretas maçónicas, antigas desde as pirâmides, e que Pessoa junta sobretudo na tradição Templária, que em Portugal continua viva depois da morte de Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, na Ordem de Cristo.
Pessoa considera-se mesmo um iniciado nesta ordem templária. Aliás, é de referir a nota biográfica escrita pelo poeta em 1935, que pode consultar no site Major Reformado (secção Biografia Completa, Apêndices), onde este é bem claro ao considerar-se um “Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas”, “Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo”.
Assim, e ainda que o Ocultismo marque a vida de Fernando Pessoa, nunca o poderemos dizer Ocultista, ou simplesmente Ocultista. O poeta é múltiplo como o universo, também e sobretudo nas maneiras como tenta entender o universo.
Se é certo que em poemas como "Na Sombra do Monte Abiegno", "Eros e Psique" ou "A Múmia", Pessoa é rigoroso e estritamente Ocultista, ele nunca se manteve dentro de regras, circunscrito a regulamentos, preso a técnicas. Desde 1915, interessa-se pelo Ocultismo mas, com 27 anos, não é um iniciado na sua viagem de descoberta, que seguirá muitos caminhos e tentativas.

(Versão corrigida. Original aqui)

Six Feet Under - Primeiro episódio da terceira série




(Diálogo entre David e Nate)


465
00:38:55,763 --> 00:38:57,765
Como estão tu e a Lisa?

466
00:39:01,061 --> 00:39:03,355
Estamos óptimos.

467
00:39:03,397 --> 00:39:05,984
Ainda é um pouco estranho para mim.

468
00:39:08,152 --> 00:39:10,905
De todos os rumos
que a minha vida poderia ter tomado...


469
00:39:16,620 --> 00:39:19,582
Quero dizer, fiquei noivo há apenas um ano.

470
00:39:19,624 --> 00:39:21,584
Lembras-te disso?

471
00:39:22,794 --> 00:39:24,839
Pensei que amasse a Brenda.

472
00:39:26,382 --> 00:39:30,136
Talvez pensasse que poderia fazer com que
resultasse apenas com a minha vontade.


473
00:39:32,013 --> 00:39:35,642
Mas... nunca se sabe.

474
00:39:37,687 --> 00:39:41,440
Não fazemos ideia nenhuma
do que a vida nos reserva.




Dou o braço a torcer ao mundo: sou a Brenda - resta saber o que é que isso pode representar.

13.6.08

Um.

Esta tarde decidi morrer. Mas não daquelas mortes ficcionais e profundamente dramáticas que proliferam nos filmes americanos. Escolhi, para a minha morte, algo mais simples, mias eficaz e que não arranje grandes chatices. Até para morrer há chatices, na maioria das vezes. E a gente quer morrer, precisamente, porque se chateou com as chatices.

Ontem vi um cão esmagado na estrada e pensei

Que bom que deve ser estar abstraído e alheio do mundo. O corpo pesado e inerte, imune às contaminações que pairam no oxigénio. As gentes a roubarem umas às outras. O oxigénio.

Quando estavas comigo – antes de te ires embora, portanto

Por tanto

Era mais fácil respirar. Talvez precise de morrer jovem para que entendas que o meu corpo e o que está dentro do meu corpo – os ossos e essas coisas todas que a gente nunca viu senão nos filmes americanos – envelheceram muito cedo. E quando há dez anos fazíamos amor

Agora não. Deita-te ao meu lado. Por favor. Abraça-me.

Eu era, na verdade, muito idosa. E agora chegou a minha vez de morrer. Nada é eterno ou pululante o suficiente para durar uma eternidade. Muito menos o amor.






Dois.

Gostava do desenho improvisado do teu cabelo, pela manhã. E de deixares, sempre, invariavelmente, sem notares – perdida no teu universo de coisas abstractas – a mesma quantidade de leite no fundo da chávena, ao pequeno-almoço. Um dia até te comprei uma caneca nova, que tinha a medida exacta daquilo que costumavas beber.

O que é que acha que me consumiu o fígado, doutor

Gostava das tuas fases de eremita. As tuas fases de euforia. As tuas fases de defunta. As tuas fases cómicas. As tuas fases redondas. As tuas fases fases.

Gostava quando rapavas as axilas em frente ao espelho da casa-de-banho da casa alugada. Era como se o mundo tivesse, por fim, encontrado uma ordem certeira. Depois, sentavas-te à beirinha da banheira e usavas a minha gilete para rapar as pernas e ríamo-nos de tamanha falta de estética. As coisas não precisam de ser belas para serem extraordinárias.

És tão bonita. Era capaz de me emaranhar em ti para sempre

Durante a tarde, sentávamo-nos, mansos, junto à enorme janela do nosso quarto e víamos os meninos da escola a namorar, no muro em frente, contíguo ao velhinho edifício. Ao lado, havia uma casa de Freiras muito grande – mas nunca vimos nenhuma – e havia os vizinhos. Um dia a polícia chegou e levou a filha e a mulher de um deles. Costumava chegar do trabalho por volta das dez da noite e ficava no carro horas a fio, debaixo da nossa janela, perfeitamente imóvel, perfeitamente quieto, perfeitamente mudo. Antes de entrar em casa.

Tínhamos rosas no jardim e quando chovia, as gotas de água desenhavam a palavra “amor” nas grandes janelas da marquise.

Como é linda a nossa casa




Três.

Escusei-me de qualquer encenação, já o disse. Pretendo uma morte simples, que possa ser tão casual como o imediatismo de tudo o que existe neste mundo. Quero uma morte que passe despercebida à agenda mediática. Uma morte sossegada. Uma morte quieta, nem para isso tenha que ser uma morte lenta. Uma morte simples, no fundo. Despretensiosa. Uma morte que não seja cheia de morte. Uma morte cheia de nada.

Antes de ires embora

Portanto

Por tanto

Havia um anjo no canto superior esquerdo do nosso quarto. Ficava sempre quieto, de espada em punho, atento e certeiro, e envergava um escudo muito grande. Atrás do anjo do nosso quarto havia uma grande buraco negro - o buraco negro do nosso quarto-,de onde provinha um zumbido angustiante, de muitas almas perdidas, num queixume doloroso. Almas inquietas a partir em revoada.

Quando mudo mudo tudo


E, então, um dia foste-te embora. Cinco anos é uma eternidade. Devias ter vergonha de ainda não teres contactado ninguém. Um simples email. Uma simples carta semi-anónima com duas linhas indiferentes. Um sinal sem significado. Um sinal disperso. Um sinal de ti. Há quem ache que morreste e que, mais dia menos dia, hão-de encontrar o teu corpo, praticamente decomposto, debaixo de uma qualquer calçada amorfa. Há quem diga que foste assaltado e raptado e acabaste por te juntar ao gang - juro-te que é verdade. Há quem diga que foste para o Tibete ou coisa que o valha. Dividimos os teus livros e as tuas coisas todas por todos. Fiquei-te com o "1984" do George Orwell, algumas fotografias. Mais umas coisas sem importância. Não sei onde ficou o resto, não sei que restos eram. Quando te foste, há muito que a nossa casa tinha deixado de ser a nossa casa e o tempo o nosso tempo. Quando te foste éramos dois estranhos magoados.

Eu não sabia que quando mudavas, mudavas tudo. Palavra. Juro-te que não.

Eu amo-te assim mesmo tudo o que tu és és tu

4.6.08

Last Hope

Maior do que o universo, lanço-me da varanda. Cá em baixo, o silêncio é amante da solidão. Em surdina, invento o céu.

15.4.08

Porque, agora, os dias são maiores

Os dias são maiores, agora. Maior a espera.

28.3.08

Todas as palavras são inúteis

Quatro da manhã.
«Um dos mais prolíferos arquitectos»

De súbito, deixo de escutar. Ao longe, a voz do Rui carcomida por um corpo sem braços a brincar com malabares

«Patente na interessante... originais e também betão armado... pelo Pelouro...Arquivo»

A morte segura os óculos, num gesto de apreensão e espreita do cimo do armário da entrada. Ofegante.

«Aprofundado estudo... editado... obras... sobretudo no... transitou... precisamente»

Precisamente, susurra o homem sem braços dos malabares. E a morte a rir-se de um homem morto sem braços a brincar com malabares.

«Esta é, assim, uma de três personalidades... mas prevê-se um mecanismo com os primeiros sintomas...»

Foder e ir às compras, fazer o gato desaparecer; O gato da Alice numa repartição das finanças; Sou capaz de muito mais. Incapaz de muito menos. O pensamento esvaiu-se-me pelas veias. Um comprimido, apenas, para salvar o mundo. Isto está tão próximo da verdade que até mete medo. Tentativa de partir para uma coisa igual. Um romance de aventuras. Acordes estilhaçados e a sombra da bandeira francesa.

«Sobretudo para cinéfilos»

Deves julgar-te feliz e iluminado, do alto da tua retórica de náuseas. Podias morrer num acidente de automóvel, que eu diria às pessoas que te são próximas: "O defunto era demasiado bloco de notas, coitado".

«É uma daquelas vetustas»

Como o ciúme, a dor e a perda.

«Crianças a partir dos 3 anos»

Vai-te foder e deixa-me em paz. Senhores e senhoras este é o meu fantasma.
A morte suspira e o homem sem braços dos malabares tem, agora, meia hora para ser surrealista, antes de morrer outra vez. "O saboroso ADN da pele", idealiza a morte.
Para mim, nada mais importa para além da estúpida invasão de discos voadores, manchete de um noticiário que nunca existiu. Há um monstro no planeta Vénus e a gente só pensa em foder e ir às compras.

Quem procura longe, ignora o que está perto.

7.7.07

De Kleppur para o meu frigorífico





Os meus sonhos são assim.
Obrigado à Casa da Insanidade por me ter conduzido ao fascinante universo de Beksiński.

29.6.07

A vida é mesmo isto: uma habituação ao silêncio

Querido X,

A estranha sensação do meu mundo ter desabado. Permite-me que comece por explicar que o meu quarto cheirava, há dias, a um abafado doce. Disseram-me que é bom deixar entrar o sol pelas frestas das persianas do quarto, porque o mundo fica aos rectângulos de luz pequeninos. E eu acreditei. A quantidade de merdas que uma pessoa acredita quando anda meia perdida. Encontrei-me numa daquelas seitas. Ficava numa ruela meia escondida da cidade, perto do centro de exames médicos. Descia-se uma rampa, três lances de escadas e a gente parecia que acreditava numa espécie de felicidade. De maneira que já nem as frestas da persiana eram suficientes, mas quando o cheiro se tornou nauseabundo, arejei o quarto de vez.
E depois eu gostei daquele dia em que acordei com o cheiro a café pela casa (é tão bom acordar com o cheiro a café pela casa, pelo mundo inteiro). Nem sei bem porque não voltámos a fazer café. Que merda de cabeça a minha, sempre a hesitar perante as coisas mais simples da vida (lugar - comum - "A VIDA!". Excelentíssimos senhores, queiram levantar-se, eis A VIDA. Quero que a vida se foda).
Ou se calhar não. Se calhar nem quero.
Se calhar quero ter um carro melhor. Uma cara metade. Um bom ordenado. Uma ou outra viagem. E pronto: aqui estamos todos em estado vegetativo, a pensar quando é que vamos passar desta para melhor. Nunca gostei de velhos. Trazem o cheiro a bafio de uma vida assim: igual às demais.
Mais relógio, menos relógio, uma casa, outra casa. Uma coisa, outra coisa. E já me esquecia do que queria escrever. Já sei. É isso. Queria falar sobre o facto de, ciclicamente, as pessoas imigrarem. É exactamente sobre isso. Mas, querido X, agora que falo nisso, a verdade é que pouco há a dizer. Apetece chorar. É exactamente isso: as pessoas imigram e apetece chorar.
Não quero que os velhos se chateiem comigo, porra. Porque raio têm eles de sofrer pelo carro não ser melhor. Por não ter a cara metade. Ou um bom ordenado. Já nem falo das viagens. O problema desta merda toda é que os problemas são sempre circulares, independentemente da sua índole. E um gajo anda aqui a sorrir, como se nada fosse. "Em estado vegetativo". Precisamente, X. Em estado vegetativo. E ninguém quer saber. Sorrimos. Em estado vegetativo. O mundo em coma. O caralho do mundo em coma.
Nunca aprendemos a sofrer. Nunca. Quando o céu nos desaba em cima, esmaga o coração com a estranha intensidade de que como fosse a primeira vez. Ou se calhar, esmaga cada vez com mais força. E um gajo anda aqui às voltas. Eu não te disse que os problemas são circulares?
Eu não sabia o que era matar alguém. Até conhecer quem conheci (eu, tu, alguém, Y, Z - nunca tive particular facilidade em decorar nomes). Mas porra. Chega um dia, X, em que até o maior dos estados vegetativos se torna insuportável. Dia, X. O Dia X. Este é o meu dia X, importas-te? E hoje até me enviaram flores em surdina, com um cartão misterioso. Que vá à merda o cartão. E as flores. E o mistério.
Mistério, mistério é saber de que pó é feita a estrada.

Amanhã será outro dia. Levanto-me da minha cama e pronto. "Amanhã também é dia", dizia o meu avô. E eu acreditava. A quantidade de merdas que uma pessoa acredita quando anda meia perdida.

«Ontem comecei
A matar-te meu amor
Agora amo
O teu cadáver
Quando eu estiver morto
O meu pó gritará por ti».

É disso que eu preciso: um artista. E, quiçá, numa noite mais feliz, um doce suicídio colectivo.
Por amor à arte.

A merda toda começa quando um gajo se apercebe do som do próprio frigorífico pela casa.

Relógio

Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
São sete da tarde.
Lembra-te de mim.

28.6.07

Bom Dia.

Querido X,

É como se a noite me tivesse adoecido nas mãos. Um dia, a luz da luz do dia fez-se de luz negra e eu deixei os sapatos de verniz vermelho pintarem-se de preto e dançarem, sozinhos, na soleira da porta da casa mágica.
Foi então que as mãos me adormeceram.
Mais tarde, foram-se as sílabas, as palavras, as frases de composição difícil. Suponho que o amor nos esvazia a alma.
Aprende-se a arte de compôr pequenos discursos triviais, ainda que férteis. De mentiras. "Como vai, senhor Z? E a esposa, passa bem?" (E as mãos a gritarem: " Essa puta anda o comer o Andrade". Gargalhada. As mãos riem-se e rebolam de tanto riso. "Só tu é que não sabes. Palhaço." As mãos gozam, entrelaçam-se. Os dedos, muito frágeis a partirem-se e a caírem no chão, absortos de tanto riso). "Eu vou bem, muito obrigado. Felizmente, tudo corre bem". (E as mãos a berrar: "Tirando os cabrões do Banco, a merda da hipoteca da casa. Já para não falar da falta de tesão do meu marido - será que o merdas anda a comer a mulher do Andrade? Não, seria demasiado para um banana de tamanha ordem. Anda mas é metido na cama de alguma puta. 10 euros, 20 euros. Que diferença faz? Ou se calhar até fazia diferença no caralho da hipoteca."
E as mãos a abrirem-se, a tornarem-se gigantes e as palavras pequenas. Muito pequenas. Tão pequenas que já não se vêm. Escutam-se em eco as putas das mentiras que vomitamos aqui e ali.
De manhã acordo e vomito logo na pastelaria. São um casal engraçado, os donos. Penso na miserável vida sexual que devem levar. Que casal normal conseguirá trabalhar em conjunto num espaço inferior a meio metro quadrado durante 10 horas por dia sem discutir?
O tesão é sempre desproporcional a qualquer tipo de plenitude.
De maneira que enquanto acordo, mergulhada na minha chávena gigante de café, vou ouvindo a senhora com as novidades da terra. E como as mãos ainda estão torpes do café, geralmente apenas é necessário abanar a cabeça, dizer que sim de vez em quando, enquanto se lança o olhar, de relance, para as horas ("Deve ser tão triste ser frígida", dizem-lhe as mãos. Mas ela não entende. A pobrezinha não entende).
Sempre tive horror a famílias perfeitas. De tão irrisório, o equilíbrio familiar aparece-me, invariavelmente, como uma merda cagada por um escritor de romances baratos qualquer. Uma mesa grande. Encontros diários. Tratar dos netos. Aceitar os desvarios deste e daquela porque é da família. Perdoar. Aceitar. Entender. Sacrificar.
Na verdade, gosto mais de famílias do género "O meu irmão é recluso, um verdadeiro filho da puta. Juro-te que não há maior filho da puta no mundo que o meu irmão". E uma pessoa acredita. Acredita-se sempre.
No outro dia, conheci uma puta. Mas uma puta a sério. E pareceu-me tão normal. Falava alto, dizia palavrões e eu não sabia que aquela mulher que falava alto e dizia palavrões era, na verdade, uma puta. Só soube depois. Tive pena. As putas são como os jogadores da bola: a coisa chega a uma altura em que não dá mais: envelhece-se. Devia existir um sindicato para as putas que envelhecem, ficam flácidas e não têm nada. Ninguém merece envelhecer e não ter nada. Nem as putas.
Depois da pastelaria, segue-se o quiosque. A mulherzita, coitada, é um bocado anafada e uma vez pedi-lhe para me guardar uns suplementos de um jornal qualquer de merda e ainda não era meio-dia e a gaja já os tinha vendido. Levei essa porra a mal. São coisas que não se fazem. " E depois a outra é que é puta", gritam-me outra vez as mãos, "até as mulherzinhas anafadas dos quiosques se vendem por meia dúzia de tostões".
A seguir, meto-me no meu carro de merda e, depois, um ou outro palavrão a olhar para o ponteiro da gasolina, último pensamento do dia anterior. ("Quem disse que amanhã é outro dia? Se calhar é outro dia para todas as coisas em geral, mas não é outro dia para os ponteiros da gasolina em particular).
E dirijo para o trabalho.
Pelo menos tenho as mãos ocupadas.

23.6.07

Meridiano do Amor. Setentrional.

...E eu matei-te. De saliva.
E comia-te os cabelos. Todos. E as crostas do teu coração.

Partir-te os dentes foi a melhor refeição da minha vida.

16.2.07

A morte é um insecto gigante

O episódio do enterro do Nate, em "Six Feet Under".
(Pedaços inquietantes das 'Odes Místicas de Rumi' ).
A referência ao dia da morte de Kurt Cobain (cliché agonizante).

A referência ao que a vida faz connosco, sem que nós quiséssemos que a vida fizesse fosse o que fosse com a nossa pele.
Putrefacta.
A nossa pele putrefacta (puta da pele putrefacta), debaixo do solo.
(Na Escola Primária, a Professora Alcina ensinava-nos uma lengalenga pouco apetitosa constituída pelos infindáveis estratos do solo , mas a canção não incluía a impetuosidade da morte.
A lengalenga que não referia o estrato dos ossos:
"Estrato onde se encontram, a sete palmos de terra, todos os ossos de todas pessoas do mundo.Porque todas as pessoas do mundo acabam por morrer - violentamente ou de forma natural. E os ossos de todas as pessoas do mundo acabam debaixo da terra. Esta é, de resto, uma das principais funções do solo: acolher os ossos cansados dos seres humanos que morrem. Segundo sim, segundo não.

Há muitas coisas que não se deixam entender, jamais. Nem na vitrine de um Museu, nem nas estantes da maior Biblioteca do Mundo.
Nem no abismo do nosso próprio coração.

Sob pena de desvalorizar o único sentido preciso da vida: a morte.

(A morte de mãos dadas, na voluptuosidade de um baloiço, no Parque Infantil ao lado de nossa casa, de mãos dadas com o amor. De mãos dadas com um poema de Edgar Allan Poe.)

(A morte sentada da sanita da nossa casa de banho, a ler a "Visão" - na página certeira da crónica do Lobo Antunes - e sorrir-nos e a acenar-nos, com as suas calças de morte entre os joelhos e os azulejos do chão).

(A morte olhar-nos de forma apreensiva, por cima dos seus óculos de morte, quando surge o inevitável debate sobre a economia nacional, ao lanche).

(A morte estilhaçada no pára-brisas do nosso carro, perfeitamente esventrada, perfeitamente espalhada pelo vidro inteirinho, na pressa da auto-estrada que leva ao Céu.)

A morte é um insecto gigante.

7.2.07

Os meus ossos são os ossos de um corpo com ossos lá dentro

Um homem sem braços a descer a calçada.
O barulho seco de um cadáver a rebolar pela encosta florida.

Bom Dia! É Primavera.