25.9.08

O bem com que me iludem

Cada um é como é. Eu esqueço facilmente o mal que me fazem. Mas nunca perdoo o bem com que me iludem.


É estranho. Esforço-me por encontrar razões para abominar a escrita do Pedro Mexia. Mas a verdade é que acabo por sorrir enquanto folheio as páginas dos livros, quando "passo os olhos" pelas crónicas no jornal e não dispenso, diariamente, pelo menos uma consulta ao blogue.

Pessoalmente, o Mexia é um indivíduo normal, um tanto ou quanto macambúzio, é certo, mas perfeitamente normal. Talvez por isso tenha ficado desencantada.

Porém, não o nego: Há pedaços de estórias que parecem tirados da minha própria história. E, na verdade, talvez seja esse o papel do verdadeiro escritor - talvez deva ser alguém que tenha a capacidade de nos falar como se nos conhecesse por dentro. Porque sabemos que há lugares onde não consentimos que ninguém chegue.


Tutto questo fa schifo

Constance Dowling, a última amada de Pavese, foi amante de Elia Kazan. Na sua autobiografia, o cineasta conta que ele e a fogosa actriz tinham sexo em todo o lado, «como animais na época da caça». Essa passagem é evocada em Quell’antico ragazzo (2006), de Lorenzo Mondo, que também cita a reacção de Constance à morte de Pavese: «I did not know he was a famous writer». A gente lê isto e percebe a última frase de Pavese: «Tutto questo fa schifo».


Apanhar mais na cabeça
A ordem homologada pelos sábios é conhecida: 1) negação 2) raiva 3) tristeza 4) aceitação. Talvez porque acredite pouco nos sábios, tive de imediato o 3 e 4, supostamente os últimos na sucessão dos eventos. Já o 2 avançou em espasmos intermitentes, e só agora ataca com força. Quanto à fase 1, a primeira de todas, nunca aconteceu. Antes de escreverem, os sábios deviam apanhar mais na cabeça.

23.9.08

N.

Costumávamos ficar deitados no teu quarto. Era como se fosses uma extensão do meu corpo. Eu gostava de ficar, assim, imóvel, horas a fio, durante a tarde. Como se o meu corpo fizesse parte do silêncio trágico do fim do dia.

Da primeira vez que nos deitámos e ficámos enroscados no calor dos teus lençóis já gastos, pensei que tinha ganho o mundo. Com um pouco de esforço, poderias vir a tornar-te na "coisa" mais importante da minha vida. Numa daquelas pessoas a quem dizemos

"És a melhor coisa que me aconteceu"

e merdas assim. Só mais tarde soube que o silêncio é a raiz de todas as estórias e talvez esperasses que, a qualquer momento, eu gritasse - fosse o que fosse, desde que fosse bem alto. Depois, devagar, dirias

"És a melhor coisa que me aconteceu".

Mas, deitados na tua cama disseste-me "Tens os olhos rasgados"; "És linda". E afagavas-me o rosto, num gesto de ternura incomensurável. 38 graus na rua e eu esperava pelo dia em que te pudesse dizer

"És a melhor coisa que me aconteceu".

Já se sabe como são as coisas.
No início, tinha uma descarada predileção pela tua biblioteca; apaixonavam-me os teus livros espalhados pelo chão da sala, pela casa inteirinha. Não sei se me apaixonei por ti ou pelos teus livros deixados ao acaso em toda a parte.
Era o tempo em que até a tua gata falava comigo e me sussurrava que ainda haverias de ser meu. A tua gata tem, por ti, uma espécie de piedade.

Sejamos realistas. Não passámos de uma tempestade de verão. Eu passei a dormir mal depois de fazermos amor. Apesar de ficarmos tão cansados que era como se o corpo deixasse de exitir. E eu não gostava de sentir o meu corpo fora de mim.

Depois era o silêncio. Os carros que passavam lá fora. Um ou outro boémio durante a noite. A televisão do vizinho de baixo. Os passos da gata pela casa. O silêncio instalado, ao nosso lado, na cama, com mãos de gigante e abraço gelado.

E o medo a assomar, do lado de lá dos vidros da varanda. Era uma tarde de sábado, eu abri a porta e o nosso amor morreu.
Duas noites, dois filmes

"Clean", de Olivier Assayas (2004) e "Paranoid Park", de Gus Van Sant (2007).

19.9.08

Discos da minha vida - I


A Quiet Riot - 34 Tracks To Save Your Life (2002)


Track Listing
Cd1
1. Shining - Badly Drawn Boy
2. Half A World Away - Oasis
3. Underdog (Save Me) - Turin Brakes
4. Toxic Girl - Kings Of Convenience
5. Past That Suits You Best - Delgados
6. Barcode Bypass - Mull Historical Society
7. It's Just About The Weather - Alfie
8. My Weakness Is None Of Your Business - Embrace
9. Last Good Day Of The Year - Cousteau
10. To You - I Am Kloot
11. End Of The World News (Dose Me Up) - McRae, Tom
12. Sting - Reindeer Section
13. July - Low
14. Setting Sun - Zephyrs
15. Silence Seems To Say - Last Post
16. Only Living Boy In New York - Everything But The Girl
17. Northern Sky - Drake, Nick
CD2
1. Up With People - Lambchop
2. Return To Sender - Mojave 3
3. Working Girls (Sunlight Shines) - Pernice Brothers
4. Don't I Hold You - Wheat
5. Song From Hope St (Brooklyn NY) - Kitt, David
6. My Drug Buddy - Lemonheads
7. Oscar Brown - Dury, Baxter
8. Punchbag - Bees
9. Wisp - Simian
10. Broke - Beta Band
11. Love Detective - Arab Strap
12. Staunton Lick - Lemon Jelly
13. Soul Vibration - J-Walk
14. Your Girl - Blue States
15. Porcelain - Moby
16. Utopia - Goldfrapp
17. Staralfur - Sigur Ros

Badly Drawn Boy no IMAGO deste ano

Dia 10 de Outubro - Desta vez é que é. Badly Drawn Boy está no IMAGO. Numa altura em que goza uma pausa na carreira e depois de quatro álbuns nos últimos oito anos, todos aclamados pela crítica e tendo o último "Born in the UK" visto a luz do dia em 2006, Damon Gough vem especialmente ao Fundão em formato acústico para nos presentear com as suas canções mais que perfeitas. Uma noite memorável para o Festival e certamente para os muitos fãs do músico britânico que vão marcar presença.
A acompanhar Badly Drawn Boy, o seu sócio na Twisted Nerve e figura ímpar do meio musical de Manchester - Andy Votel, que vai trazer dois dos mais importantes novos projectos da editora: VOICE OF THE SEVEN WOODS (UK) e SAMANDTHEPLANTS (UK). O primeiro (Rick Tomlinson, com a sua weird-acid-folk e extraordinária forma de tocar guitarra), viu o seu álbum de estreia integrar as listas dos melhores de 2007 nas mais importantes publicações musicais um pouco por todo o mundo, os segundos, depois de uma série de singles preparam-se para o primeiro LP.
Melhor era impossível.

18.9.08

Um dia, hei-de erguer-me na escuridão.

E construir um enorme agasalho de lágrimas.
Passo pelo mundo sem viver
e a vida passa por mim,

indiferente ao cada vez menor
desejo de sobreviver.


Esqueci-me do sonho e da alegria.

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa

17.9.08

O melhores discos do verão (Sound + Vision)



As restantes escolhas dos leitores do blogue dos jornalistas Nuno Galopim e João Lopes até podem ser discutíveis, mas "Modern Guilt" do Beck é, de facto, um óptimo disquinho.

A lista:

Beck “Modern Guilt” – 28%
Shearwater “Rook” – 19%
Lykke Li “Youth Novels” – 17%
Primal Scream “Beautiful Future” – 16%
Late Of The Pier “Fantasy Black Channel” – 10%
Black Kids “Partie Traumatic” – 6%
Conor Oberst “Conor Oberst” – 4%
Wild Beasts “Limbo Panto” – 3%
Carla Bruni “Comme Si de Rien N’Etait” – 2%
10º Daedalus “Love To Maka Music To” – 1%

16.9.08

«Uma coisa viva que caiu

Ela fala do futuro e eu não escondo o meu desinteresse pelo tema. Todo o futuro que tinha esgotou-se, esvaiu-se. Agora as ocupações são rotinas inócuas, entreténs ou descontos de tempo. Zombie razoavelmente competente, faço aquilo que me é pedido, estou quando me chamam, sou pontual, pródigo, prolífico, cumpro prazos e funções, telefono, ironizo, compreendo, pontifico, cumprimento, vou ao cinema, atravesso no verde, mas assim como o poeta escreveu «era depois da morte herberto helder» também agora «é depois da morte pedro mexia», cadáver vem do latim cado, «caído», um cadáver, minha querida, é apenas uma coisa viva que caiu.»

Pedro Mexia, Estado Civil

11.9.08

Ava Inferi - "A portal to the never-ending well of expression and creativity"

Os Ava Inferi são uma banda de doom/gothic metal de Almada, fundada pelo guitarrista e compositor norueguês Rune Eriksen em 2005. Um dos conceitos que levou a formação a reunir-se em torno do projecto prende-se, dizem os próprios, com a vontade de libertar e canalizar as frustrações e misérias da vida - "A portal to the never-ending well of expression and creativity" (biografia do site oficial). Carmen Simões dá a voz ao colectivo, composto ainda por Jaime Ferreira (baixo), João Samora (percusão). O primeiro álbum dos Ava Inferi, "Burdens", foi lançado em Janeiro de 2006. O segundo disco, "The Silhouette", chegou às lojas em Outubro de 2007.




"A dança das ondas"

10.9.08

Pretensa poesia anímica

"Ama-me".
Grito-te.

9.9.08

Hector Zazou

Faleceu, esta manhã, Hector Zazou.

8.9.08







Fascinante. O trabalho de Dave Mckean (aqui).


Stephan Martiniere.

5.9.08

Solidão

Pedi-te, tão somente, que morresses comigo.

Northern Sky

25.8.08

A fotografia de Pedro Afonso

Para experimentar aqui.

9.8.08

O meu fígado a palpitar debaixo da pele e um travo a ódio a querer vomitar-me da boca.
De noite há os sons de campainhas amorosas, mas o dia, esse, acaba por raiar invariavelmente, com o choro das crianças do vizinho de baixo ou com a voz fininha da vizinha anafada do primeiro andar, que pragueja enquanto crucifica a roupa no estendal, dia sim dia não.

Mil duzentas e quarenta e três vidas a descoberto. Conteia-as outro dia. Por ti.

Tenho constatado, nas entrelinhas da minha biografia, a presença feroz de uma espécie de "mão invisível" que comanda a vida.
O meu momento de duração. Falei-te, uma vez, do Peter Handke. O "Poema à Duração" desapareceu, engolido por um portal para outra dimensão, em pleno elevador.

Talvez não haja, de facto, por que recear.
É só uma bola.

20.7.08

Súplica

Faz de mim o começo de uma história maldita.
Tudo o que desfaça, ainda que levemente, este estado de ansiedade pode ser prejudicial. E matar.

30.6.08

Vai.

Voa.
Tua vida será uma quimera florida
de sonho e poesia.

Tua estrela há-de brilhar
por sobre as águas
de um cruzeiro.

Ergue-te ao vento,
Enxerga.
Faz da sorte um vaso de barro
E guarda-o do mundo,
a cantar, numa prece infinta.

Vai.
Encosta-te ao vento.
Sê filho do sonho
do mar das estrelas
Corteja tuas mulheres
Ama o teu jardim

Abre-te ao mundo
aos néons das cidades
que hás-de ter

Sossega, depois.
Porque o mundo fez-te mundo
E do mundo nasceu a verdade.

28.6.08

Espiritismo - II

A doutrina espírita é uma corrente de pensamento — nascida em meados do século XIX — que se estruturou a partir de diálogos estabelecidos entre o pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) e o que ele e muitos pesquisadores da época defendiam tratar-se de espíritos de pessoas falecidas, que se manifestavam através de diversos médiuns.

Caracteriza-se pelo ideal de compreensão da realidade mediante a integração entre as três formas clássicas de conhecimento: a ciência, a filosofia e a religião. Segundo Allan Kardec, cada uma delas, se tomada isoladamente, tende a conduzir a excessos de cepticismo, negação ou fanatismo.
Assim, a doutrina espírita propõe-se a estabelecer um diálogo entre as três formas de conhecimento, com vista à obtenção de uma forma original, que a um só tempo fosse mais abrangente e profunda, de compreender a realidade.

A base doutrinária é o "Livro dos Espíritos", a primeira das chamadas obras básicas escritas por Kardec (A "Codificação espírita" é constituída por cinco livros básico). N' "O Livro dos Espíritos", consta o resultado preliminar dos diálogos estabelecidos por Allan Kardec em diversas reuniões mediúnicas com espíritos "desencarnados". A obra é dividida em 1019 tópicos no estilo pergunta–resposta, ordenados didaticamente pelo pedagogo. As questões levantadas no livro serviram de base para os demais livros que compõem a "Codificação".A doutrina espírita tem inspiração cristã, apesar das concepções teológicas bem diferenciadas no que diz respeito a conceitos como divindade, natureza humana, salvação, graça e destino. Para os espíritas, Jesus Cristo é o espírito mais elevado que conhecemos em toda a história da Terra, bem como o modelo de conduta para o auto-aperfeiçoamento humano.

Espiritismo - I

O termo "espiritismo" (do francês"espiritisme") surgiu como um neologismo, mais precisamente um "porte-manteau", criado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de "Allan Kardec", para nomear o corpo de idéias por ele sistematizadas , inicialmente n' "O Livro dos Espíritos" (1857).

Contudo, a utilização de raízes oriundas da língua viva para compor a palavra ("spirit": espírito + "isme": doutrina), que, se por um lado foi um expediente a que Kardec recorreu para facilitar a difusão do novo conjunto de idéias, por outro fez com que o termo fosse rapidamente incorporado ao uso quotidiano para designar tudo o que dizia respeito à comunicação com os espíritos.
Assim, por "espiritismo" muitos entendem, hoje, as várias doutrinas religiosas e/ou filosóficas que crêem na sobrevivência do espírito à morte do corpo, e, principalmente, na possibilidade de se comunicar ordinariamente com ele.
O espiritismo, de um modo geral, fundamenta-se nos seguintes pontos:
- O homem é um espírito temporariamente ligado a um corpo (para Kardec esta ligação é feita através de uma interface que denomina de perispírito, um envoltório semimaterial);
- A alma é o espírito enquanto ligada ao corpo;
- O espírito, compreendido como individualidade inteligente da Criação, é imortal;
- A reencarnação é o processo natural de aperfeiçoamento dos espíritos;
- Este aperfeiçoamento, através das reencarnações (vidas sucessivas), está ligado a uma Lei de Causa e Efeito, segundo a qual recebemos na medida do que causamos (bondade e/ou maldade);
- Os espíritos encarnados ("vivos") e os espíritos desencarnados ("mortos") podem comunicar-se através da mediunidade;
- A Terra não é o único planeta com vida inteligente (pluralidade dos mundos habitados).

25.6.08

«...não há mais metafísica no mundo senão chocolates»

Soubesses tu que as horas passam morosas e pesadas deste lado da cidade!
(A última teia do diabo)

No meu corpo, trejeitos e pedaços gigantes do teu corpo. O teu coração enforcado no meu. Soubesse eu que o teu beijo era o meu beijo e as tuas mãos o começo de um universo sem fim!

Doce respirar das tuas entranhas, embrenhadas na palidez dos dias: esta é uma estória sem princípio nem fim. Não há formúlas geométricas, equações de terceiro grau ou silogismos complicados. É a história de duas peles a dançar em uníssono, escondidas no silêncio estereofónico de uma noite qualquer.

A tua lua, a minha lua.

A doce melodia de um fio de água a verter para o infinito. A tua voz encostada ao meu ouvido. Encostada ao meu pescoço. Absorta no cântico ritmado do meu coração. A tua voz misturada com o coro das estrelas. A tua voz escrita na história em versos e cantos da minha inquietude. A tua voz no vazio da solidão. A tua voz desenhada nas paredes do meu quarto, esquartejada três quarteirões depois do ecoponto, estilhaçada debaixo das rodas de um carro na curva apertada que o mundo faz antes da linha do horizonte. A tua voz dentro de um copo, misturada com qualquer coisa alcoólica que nos salva a vida, ainda que por breves instantes. A tua voz dentro de mim, dispersa em mim, entornada em mim, embrulhada em mim.

Não há metafísica alguma na vida. Somos prisioneiros irremediáveis da sina austera do nosso próprio coração.

19.6.08

Playlist: Música portuguesa de sempre

Intemporais, marcantes e orgulhosamente portuguesas: Da beleza inatingível do amor nas vozes de Maria Guinot, Carlos do Carmo ou Simone de Oliveira aos primórdios do rock português com os Trabalhores do Comércio, António Variações, Rádio Macau, Taxi ou Heróis do Mar. A pop que marcou uma época: Ban, Carlos Paião. Os êxitos dos Jáfumega e Duo Ouro Negro. A música de intervenção de Carlos Paredes e José Afonso.

Falta, é certo, o riso brejeiro das varinas, consagrado no Fado, a canção portuguesa por excelência. A verdade é que é impossível resumir a grandiosidade da música nacional em meia dúzia de canções. No entanto, e porque "recordar é viver", ficam 15 músicas que fizeram história.

1. Estrela da tarde, Carlos do Carmo;
2. Silêncio e tanta gente, Maria Guinot;
3. Pó de arroz, Carlos Paião;
4. Queda do Império, Vitorino;
5. Esta balada que te dou, Armando Gama;
6. Dias atlânticos, Ban;
7. Estou além, António Variações;
8. Amor, Heróis do Mar;
9. Latin' América, Jafu'mega;
10. Chiclete, Taxi;
11. Chamem a polícia, Trabalhadores do Comércio;
12. Vou levar-te comigo, Duo Ouro Negro;
13. Bom Dia Lisboa, Rádio Macau;
14. Vejam bem, José Afonso;
15. Variações em Ré Maior, Carlos Paredes;

16.6.08

Six Feet Under - Episódio sete, terceira série

Brenda e Nate

-Posso dizer-te uma coisa?
- Claro.
- Não quero deixar-te numa posição esquisita...
- Já estou numa posição esquisita. Todaa minha vida estive numa posição esquisita.
- Tive saudades tuas, durante esta situação.
- Também tive saudades tuas. Não é que não saiba o quanto a nossa relação me fez mudar, o quanto me acordaste, como pessoa. Não estaria onde estou hoje, se não te tivesse conhecido. Não usaria fio dental todos os dias.
- Continuas a fazer isso?
- Depois de cada refeição.
- Também me mudou.
- Sim?
- És a primeira pessoa que perdi e que realmente me custou alguma coisa. É por isso que nunca mais tive ninguém.
- Ninguém?
- É demasiado assustador... A ideia de estragar tudo outra vez...
- Hás-de encontrar alguém.
- Isso não é solução. Sabes o que acho?
- Sobre o quê?
- Não sei... Sobre a vida.
- O quê?
- Acho que é tudo uma questão de timming. Acho que o timming é tudo.
- Acho que talvez tenhas razão.

15.6.08

Memória - I



Festival Eurovisão da Canção de 1976.
O poema é de José Carlos Ary dos Santos. A voz emprestada por Carlos do Carmo. "Estrela da tarde" é uma canção que rasga os limites do belo.
Na verdade, gosto de passar a tarde de domingo em frente à RTP Memória. Gosto de Portugal, do Fado. Das histórias de varinas brejeiras e de caravelas corajosas. Dos acordes doces dos Madredeus, das roupas de antigamente. Da memória de uma Mouraria em que, por infortúnio do destino, não cresci. Dos relatos de antigamente.

Do tempo em que ainda se contavam histórias.

No fundo, gostava de ter nascido antes.

14.6.08

Tributo à alma estilhaçada - os 120 anos sobre o nascimento de Pessoa

A Mediunidade de Fernando Pessoa

Pese embora o facto de Fernando Pessoa ser encarado, frequentemente, pelos seus muitos biógrafos, como um poeta eminentemente racional, a vertente espírita é extremamente forte no seu percurso e, consequentemente nos seus escritos, desde a juventude.
Na verdade, desde muito jovem que o poeta experimentou sensações que considerava inexplicáveis e que o levariam, mais tarde, a um estudo feito pela razão.
Conta o irmão de Pessoa que, não raras vezes, este tinha visões, ao espelho, que não correspondiam a ele próprio, mas a outras pessoas. Seria esta uma projecção infantil dos futuros heterónimos, "outros-ele"?
Também desde a sua juventude, o poeta tinha amigos ficcionados, imaginários, que o ajudavam a superar as dificuldades de deixar de ser “o menino de sua mãe”, de ter de mudar constantemente de casa e de não saber com certeza qual seria o seu futuro.
Seja como for, e começando pela mediunidade em Fernando Pessoa, o melhor documento que nos chegou como testemunho dessa vertente, é uma carta que ele escreve à Tia Anica em 24/06/1916. Nela, o poeta diz que a partir de Março de 1916 começou a ter experiências de médium, ou seja, de condutor de energias que não deste mundo.
Como que previsivelmente, a mediunidade revela-se, em Fernando Pessoa, através da modalidade da escrita automática. O autor conta que, vindo da Brasileira um dia, parou na sua secretária e começa a escrever “comunicações”, muitas das vezes incompreensíveis ou apenas banais, mas assinadas com outros nomes.

A sua primeira experiência terá surgido com o espírito do seu Tio Manuel da Cunha. Outro exemplo de mediunidade acontece quando o seu melhor amigo Sá-Carneiro (então em Paris) sofre de uma grande depressão - que o levaria mais tarde ao suicídio. Pessoa diz sentir tudo, como se fosse com ele mesmo, em Lisboa.
Relata, também à Tia Anica, uma instância de visão astral (vê a sua aura no espelho) e visão etérea (observa as costelas de um sujeito, na Brasileira, através do casaco e da pele).
É certo que se estava no princípio do século e que por toda a Europa o Ocultismo e a Mediunidade estavam na moda como nunca, mas Fernando Pessoa preferia, ainda assim, entender as suas capacidades como um “chamamento de um mestre superior”, um chamamento “para uma missão”. O Mestre Desconhecido, que aparece referido em outras ocasiões, é uma “desculpa” plausível para o crescente isolamento do poeta face ao mundo exterior. É que ele encara a sua missão como "fazedor" de mitos, revelador de mistérios, como uma missão mais alta do que a própria vida, mas justificada como um sacrifício advindo do seu destino irrenunciável. Claro que tudo isto pode ser apenas uma justificação racional para um desespero e uma solidão crescentes, que o poeta sentia cada vez mais como um drama que era impossível de superar senão pela sua inteligência e criatividade.
Se aceitasse que estava sozinho, que não tinha um futuro, bases seguras para amar alguém, para achar segurança na família e nos amigos, seguramente Fernando Pessoa contemplaria o suicídio, o desespero. Porém, ele absorve a ideia de um espírito de missão, em que é fundamental completar a sua “obra”, escrever cada vez mais, e cada vez mais sem medo, mais profundamente.

É também certo o interesse de Pessoa por religiões para além da Cristã. Sobretudo é conhecido o interesse na Escola Teosófica de Madame Blavatsky, uma imigrante Russa que, nos Estados Unidos, congrega ideias de variadas religiões numa amálgama que começa o que mais tarde se conhecerá como Movimento Ocultista. Porém, em Fernando Pessoa, o Ocultismo é mais do que apenas a Mediunidade.
Isto porque Pessoa foi, sobretudo, um poeta simbólico e é através dos símbolos que ele soube aproximar-se melhor dos mistérios ocultos da vida e da morte. A "Mensagem" é um poema simbólico e ocultista. Aliás, muitos dos poemas mais conhecidos do poeta são simbólicos.
António Quadros, na obra "Fernando Pessoa – vida, personalidade e génio", diz-nos que o poeta tentou aceder ao conhecimento oculto de três maneiras: como gnósico, pela intuição e experiência sensível - ou seja, pelas experiências sensíveis da mediunidade; como sófico - como intelectual, pelas suas capacidades de análise e de raciocínio - e, finalmente, como iniciático, ou seja, seguindo antigos ensinamentos das ordens secretas maçónicas, antigas desde as pirâmides, e que Pessoa junta sobretudo na tradição Templária, que em Portugal continua viva depois da morte de Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, na Ordem de Cristo.
Pessoa considera-se mesmo um iniciado nesta ordem templária. Aliás, é de referir a nota biográfica escrita pelo poeta em 1935, que pode consultar no site Major Reformado (secção Biografia Completa, Apêndices), onde este é bem claro ao considerar-se um “Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas”, “Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo”.
Assim, e ainda que o Ocultismo marque a vida de Fernando Pessoa, nunca o poderemos dizer Ocultista, ou simplesmente Ocultista. O poeta é múltiplo como o universo, também e sobretudo nas maneiras como tenta entender o universo.
Se é certo que em poemas como "Na Sombra do Monte Abiegno", "Eros e Psique" ou "A Múmia", Pessoa é rigoroso e estritamente Ocultista, ele nunca se manteve dentro de regras, circunscrito a regulamentos, preso a técnicas. Desde 1915, interessa-se pelo Ocultismo mas, com 27 anos, não é um iniciado na sua viagem de descoberta, que seguirá muitos caminhos e tentativas.

(Versão corrigida. Original aqui)

Six Feet Under - Primeiro episódio da terceira série




(Diálogo entre David e Nate)


465
00:38:55,763 --> 00:38:57,765
Como estão tu e a Lisa?

466
00:39:01,061 --> 00:39:03,355
Estamos óptimos.

467
00:39:03,397 --> 00:39:05,984
Ainda é um pouco estranho para mim.

468
00:39:08,152 --> 00:39:10,905
De todos os rumos
que a minha vida poderia ter tomado...


469
00:39:16,620 --> 00:39:19,582
Quero dizer, fiquei noivo há apenas um ano.

470
00:39:19,624 --> 00:39:21,584
Lembras-te disso?

471
00:39:22,794 --> 00:39:24,839
Pensei que amasse a Brenda.

472
00:39:26,382 --> 00:39:30,136
Talvez pensasse que poderia fazer com que
resultasse apenas com a minha vontade.


473
00:39:32,013 --> 00:39:35,642
Mas... nunca se sabe.

474
00:39:37,687 --> 00:39:41,440
Não fazemos ideia nenhuma
do que a vida nos reserva.




Dou o braço a torcer ao mundo: sou a Brenda - resta saber o que é que isso pode representar.

13.6.08

Um.

Esta tarde decidi morrer. Mas não daquelas mortes ficcionais e profundamente dramáticas que proliferam nos filmes americanos. Escolhi, para a minha morte, algo mais simples, mias eficaz e que não arranje grandes chatices. Até para morrer há chatices, na maioria das vezes. E a gente quer morrer, precisamente, porque se chateou com as chatices.

Ontem vi um cão esmagado na estrada e pensei

Que bom que deve ser estar abstraído e alheio do mundo. O corpo pesado e inerte, imune às contaminações que pairam no oxigénio. As gentes a roubarem umas às outras. O oxigénio.

Quando estavas comigo – antes de te ires embora, portanto

Por tanto

Era mais fácil respirar. Talvez precise de morrer jovem para que entendas que o meu corpo e o que está dentro do meu corpo – os ossos e essas coisas todas que a gente nunca viu senão nos filmes americanos – envelheceram muito cedo. E quando há dez anos fazíamos amor

Agora não. Deita-te ao meu lado. Por favor. Abraça-me.

Eu era, na verdade, muito idosa. E agora chegou a minha vez de morrer. Nada é eterno ou pululante o suficiente para durar uma eternidade. Muito menos o amor.






Dois.

Gostava do desenho improvisado do teu cabelo, pela manhã. E de deixares, sempre, invariavelmente, sem notares – perdida no teu universo de coisas abstractas – a mesma quantidade de leite no fundo da chávena, ao pequeno-almoço. Um dia até te comprei uma caneca nova, que tinha a medida exacta daquilo que costumavas beber.

O que é que acha que me consumiu o fígado, doutor

Gostava das tuas fases de eremita. As tuas fases de euforia. As tuas fases de defunta. As tuas fases cómicas. As tuas fases redondas. As tuas fases fases.

Gostava quando rapavas as axilas em frente ao espelho da casa-de-banho da casa alugada. Era como se o mundo tivesse, por fim, encontrado uma ordem certeira. Depois, sentavas-te à beirinha da banheira e usavas a minha gilete para rapar as pernas e ríamo-nos de tamanha falta de estética. As coisas não precisam de ser belas para serem extraordinárias.

És tão bonita. Era capaz de me emaranhar em ti para sempre

Durante a tarde, sentávamo-nos, mansos, junto à enorme janela do nosso quarto e víamos os meninos da escola a namorar, no muro em frente, contíguo ao velhinho edifício. Ao lado, havia uma casa de Freiras muito grande – mas nunca vimos nenhuma – e havia os vizinhos. Um dia a polícia chegou e levou a filha e a mulher de um deles. Costumava chegar do trabalho por volta das dez da noite e ficava no carro horas a fio, debaixo da nossa janela, perfeitamente imóvel, perfeitamente quieto, perfeitamente mudo. Antes de entrar em casa.

Tínhamos rosas no jardim e quando chovia, as gotas de água desenhavam a palavra “amor” nas grandes janelas da marquise.

Como é linda a nossa casa




Três.

Escusei-me de qualquer encenação, já o disse. Pretendo uma morte simples, que possa ser tão casual como o imediatismo de tudo o que existe neste mundo. Quero uma morte que passe despercebida à agenda mediática. Uma morte sossegada. Uma morte quieta, nem para isso tenha que ser uma morte lenta. Uma morte simples, no fundo. Despretensiosa. Uma morte que não seja cheia de morte. Uma morte cheia de nada.

Antes de ires embora

Portanto

Por tanto

Havia um anjo no canto superior esquerdo do nosso quarto. Ficava sempre quieto, de espada em punho, atento e certeiro, e envergava um escudo muito grande. Atrás do anjo do nosso quarto havia uma grande buraco negro - o buraco negro do nosso quarto-,de onde provinha um zumbido angustiante, de muitas almas perdidas, num queixume doloroso. Almas inquietas a partir em revoada.

Quando mudo mudo tudo


E, então, um dia foste-te embora. Cinco anos é uma eternidade. Devias ter vergonha de ainda não teres contactado ninguém. Um simples email. Uma simples carta semi-anónima com duas linhas indiferentes. Um sinal sem significado. Um sinal disperso. Um sinal de ti. Há quem ache que morreste e que, mais dia menos dia, hão-de encontrar o teu corpo, praticamente decomposto, debaixo de uma qualquer calçada amorfa. Há quem diga que foste assaltado e raptado e acabaste por te juntar ao gang - juro-te que é verdade. Há quem diga que foste para o Tibete ou coisa que o valha. Dividimos os teus livros e as tuas coisas todas por todos. Fiquei-te com o "1984" do George Orwell, algumas fotografias. Mais umas coisas sem importância. Não sei onde ficou o resto, não sei que restos eram. Quando te foste, há muito que a nossa casa tinha deixado de ser a nossa casa e o tempo o nosso tempo. Quando te foste éramos dois estranhos magoados.

Eu não sabia que quando mudavas, mudavas tudo. Palavra. Juro-te que não.

Eu amo-te assim mesmo tudo o que tu és és tu

4.6.08

Last Hope

Maior do que o universo, lanço-me da varanda. Cá em baixo, o silêncio é amante da solidão. Em surdina, invento o céu.

15.4.08

Porque, agora, os dias são maiores

Os dias são maiores, agora. Maior a espera.

28.3.08

Todas as palavras são inúteis

Quatro da manhã.
«Um dos mais prolíferos arquitectos»

De súbito, deixo de escutar. Ao longe, a voz do Rui carcomida por um corpo sem braços a brincar com malabares

«Patente na interessante... originais e também betão armado... pelo Pelouro...Arquivo»

A morte segura os óculos, num gesto de apreensão e espreita do cimo do armário da entrada. Ofegante.

«Aprofundado estudo... editado... obras... sobretudo no... transitou... precisamente»

Precisamente, susurra o homem sem braços dos malabares. E a morte a rir-se de um homem morto sem braços a brincar com malabares.

«Esta é, assim, uma de três personalidades... mas prevê-se um mecanismo com os primeiros sintomas...»

Foder e ir às compras, fazer o gato desaparecer; O gato da Alice numa repartição das finanças; Sou capaz de muito mais. Incapaz de muito menos. O pensamento esvaiu-se-me pelas veias. Um comprimido, apenas, para salvar o mundo. Isto está tão próximo da verdade que até mete medo. Tentativa de partir para uma coisa igual. Um romance de aventuras. Acordes estilhaçados e a sombra da bandeira francesa.

«Sobretudo para cinéfilos»

Deves julgar-te feliz e iluminado, do alto da tua retórica de náuseas. Podias morrer num acidente de automóvel, que eu diria às pessoas que te são próximas: "O defunto era demasiado bloco de notas, coitado".

«É uma daquelas vetustas»

Como o ciúme, a dor e a perda.

«Crianças a partir dos 3 anos»

Vai-te foder e deixa-me em paz. Senhores e senhoras este é o meu fantasma.
A morte suspira e o homem sem braços dos malabares tem, agora, meia hora para ser surrealista, antes de morrer outra vez. "O saboroso ADN da pele", idealiza a morte.
Para mim, nada mais importa para além da estúpida invasão de discos voadores, manchete de um noticiário que nunca existiu. Há um monstro no planeta Vénus e a gente só pensa em foder e ir às compras.

Quem procura longe, ignora o que está perto.

7.7.07

De Kleppur para o meu frigorífico





Os meus sonhos são assim.
Obrigado à Casa da Insanidade por me ter conduzido ao fascinante universo de Beksiński.

29.6.07

A vida é mesmo isto: uma habituação ao silêncio

Querido X,

A estranha sensação do meu mundo ter desabado. Permite-me que comece por explicar que o meu quarto cheirava, há dias, a um abafado doce. Disseram-me que é bom deixar entrar o sol pelas frestas das persianas do quarto, porque o mundo fica aos rectângulos de luz pequeninos. E eu acreditei. A quantidade de merdas que uma pessoa acredita quando anda meia perdida. Encontrei-me numa daquelas seitas. Ficava numa ruela meia escondida da cidade, perto do centro de exames médicos. Descia-se uma rampa, três lances de escadas e a gente parecia que acreditava numa espécie de felicidade. De maneira que já nem as frestas da persiana eram suficientes, mas quando o cheiro se tornou nauseabundo, arejei o quarto de vez.
E depois eu gostei daquele dia em que acordei com o cheiro a café pela casa (é tão bom acordar com o cheiro a café pela casa, pelo mundo inteiro). Nem sei bem porque não voltámos a fazer café. Que merda de cabeça a minha, sempre a hesitar perante as coisas mais simples da vida (lugar - comum - "A VIDA!". Excelentíssimos senhores, queiram levantar-se, eis A VIDA. Quero que a vida se foda).
Ou se calhar não. Se calhar nem quero.
Se calhar quero ter um carro melhor. Uma cara metade. Um bom ordenado. Uma ou outra viagem. E pronto: aqui estamos todos em estado vegetativo, a pensar quando é que vamos passar desta para melhor. Nunca gostei de velhos. Trazem o cheiro a bafio de uma vida assim: igual às demais.
Mais relógio, menos relógio, uma casa, outra casa. Uma coisa, outra coisa. E já me esquecia do que queria escrever. Já sei. É isso. Queria falar sobre o facto de, ciclicamente, as pessoas imigrarem. É exactamente sobre isso. Mas, querido X, agora que falo nisso, a verdade é que pouco há a dizer. Apetece chorar. É exactamente isso: as pessoas imigram e apetece chorar.
Não quero que os velhos se chateiem comigo, porra. Porque raio têm eles de sofrer pelo carro não ser melhor. Por não ter a cara metade. Ou um bom ordenado. Já nem falo das viagens. O problema desta merda toda é que os problemas são sempre circulares, independentemente da sua índole. E um gajo anda aqui a sorrir, como se nada fosse. "Em estado vegetativo". Precisamente, X. Em estado vegetativo. E ninguém quer saber. Sorrimos. Em estado vegetativo. O mundo em coma. O caralho do mundo em coma.
Nunca aprendemos a sofrer. Nunca. Quando o céu nos desaba em cima, esmaga o coração com a estranha intensidade de que como fosse a primeira vez. Ou se calhar, esmaga cada vez com mais força. E um gajo anda aqui às voltas. Eu não te disse que os problemas são circulares?
Eu não sabia o que era matar alguém. Até conhecer quem conheci (eu, tu, alguém, Y, Z - nunca tive particular facilidade em decorar nomes). Mas porra. Chega um dia, X, em que até o maior dos estados vegetativos se torna insuportável. Dia, X. O Dia X. Este é o meu dia X, importas-te? E hoje até me enviaram flores em surdina, com um cartão misterioso. Que vá à merda o cartão. E as flores. E o mistério.
Mistério, mistério é saber de que pó é feita a estrada.

Amanhã será outro dia. Levanto-me da minha cama e pronto. "Amanhã também é dia", dizia o meu avô. E eu acreditava. A quantidade de merdas que uma pessoa acredita quando anda meia perdida.

«Ontem comecei
A matar-te meu amor
Agora amo
O teu cadáver
Quando eu estiver morto
O meu pó gritará por ti».

É disso que eu preciso: um artista. E, quiçá, numa noite mais feliz, um doce suicídio colectivo.
Por amor à arte.

A merda toda começa quando um gajo se apercebe do som do próprio frigorífico pela casa.

Relógio

Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
Vazio.
Um comprimido.
São sete da tarde.
Lembra-te de mim.

28.6.07

Bom Dia.

Querido X,

É como se a noite me tivesse adoecido nas mãos. Um dia, a luz da luz do dia fez-se de luz negra e eu deixei os sapatos de verniz vermelho pintarem-se de preto e dançarem, sozinhos, na soleira da porta da casa mágica.
Foi então que as mãos me adormeceram.
Mais tarde, foram-se as sílabas, as palavras, as frases de composição difícil. Suponho que o amor nos esvazia a alma.
Aprende-se a arte de compôr pequenos discursos triviais, ainda que férteis. De mentiras. "Como vai, senhor Z? E a esposa, passa bem?" (E as mãos a gritarem: " Essa puta anda o comer o Andrade". Gargalhada. As mãos riem-se e rebolam de tanto riso. "Só tu é que não sabes. Palhaço." As mãos gozam, entrelaçam-se. Os dedos, muito frágeis a partirem-se e a caírem no chão, absortos de tanto riso). "Eu vou bem, muito obrigado. Felizmente, tudo corre bem". (E as mãos a berrar: "Tirando os cabrões do Banco, a merda da hipoteca da casa. Já para não falar da falta de tesão do meu marido - será que o merdas anda a comer a mulher do Andrade? Não, seria demasiado para um banana de tamanha ordem. Anda mas é metido na cama de alguma puta. 10 euros, 20 euros. Que diferença faz? Ou se calhar até fazia diferença no caralho da hipoteca."
E as mãos a abrirem-se, a tornarem-se gigantes e as palavras pequenas. Muito pequenas. Tão pequenas que já não se vêm. Escutam-se em eco as putas das mentiras que vomitamos aqui e ali.
De manhã acordo e vomito logo na pastelaria. São um casal engraçado, os donos. Penso na miserável vida sexual que devem levar. Que casal normal conseguirá trabalhar em conjunto num espaço inferior a meio metro quadrado durante 10 horas por dia sem discutir?
O tesão é sempre desproporcional a qualquer tipo de plenitude.
De maneira que enquanto acordo, mergulhada na minha chávena gigante de café, vou ouvindo a senhora com as novidades da terra. E como as mãos ainda estão torpes do café, geralmente apenas é necessário abanar a cabeça, dizer que sim de vez em quando, enquanto se lança o olhar, de relance, para as horas ("Deve ser tão triste ser frígida", dizem-lhe as mãos. Mas ela não entende. A pobrezinha não entende).
Sempre tive horror a famílias perfeitas. De tão irrisório, o equilíbrio familiar aparece-me, invariavelmente, como uma merda cagada por um escritor de romances baratos qualquer. Uma mesa grande. Encontros diários. Tratar dos netos. Aceitar os desvarios deste e daquela porque é da família. Perdoar. Aceitar. Entender. Sacrificar.
Na verdade, gosto mais de famílias do género "O meu irmão é recluso, um verdadeiro filho da puta. Juro-te que não há maior filho da puta no mundo que o meu irmão". E uma pessoa acredita. Acredita-se sempre.
No outro dia, conheci uma puta. Mas uma puta a sério. E pareceu-me tão normal. Falava alto, dizia palavrões e eu não sabia que aquela mulher que falava alto e dizia palavrões era, na verdade, uma puta. Só soube depois. Tive pena. As putas são como os jogadores da bola: a coisa chega a uma altura em que não dá mais: envelhece-se. Devia existir um sindicato para as putas que envelhecem, ficam flácidas e não têm nada. Ninguém merece envelhecer e não ter nada. Nem as putas.
Depois da pastelaria, segue-se o quiosque. A mulherzita, coitada, é um bocado anafada e uma vez pedi-lhe para me guardar uns suplementos de um jornal qualquer de merda e ainda não era meio-dia e a gaja já os tinha vendido. Levei essa porra a mal. São coisas que não se fazem. " E depois a outra é que é puta", gritam-me outra vez as mãos, "até as mulherzinhas anafadas dos quiosques se vendem por meia dúzia de tostões".
A seguir, meto-me no meu carro de merda e, depois, um ou outro palavrão a olhar para o ponteiro da gasolina, último pensamento do dia anterior. ("Quem disse que amanhã é outro dia? Se calhar é outro dia para todas as coisas em geral, mas não é outro dia para os ponteiros da gasolina em particular).
E dirijo para o trabalho.
Pelo menos tenho as mãos ocupadas.

23.6.07

Meridiano do Amor. Setentrional.

...E eu matei-te. De saliva.
E comia-te os cabelos. Todos. E as crostas do teu coração.

Partir-te os dentes foi a melhor refeição da minha vida.

16.2.07

A morte é um insecto gigante

O episódio do enterro do Nate, em "Six Feet Under".
(Pedaços inquietantes das 'Odes Místicas de Rumi' ).
A referência ao dia da morte de Kurt Cobain (cliché agonizante).

A referência ao que a vida faz connosco, sem que nós quiséssemos que a vida fizesse fosse o que fosse com a nossa pele.
Putrefacta.
A nossa pele putrefacta (puta da pele putrefacta), debaixo do solo.
(Na Escola Primária, a Professora Alcina ensinava-nos uma lengalenga pouco apetitosa constituída pelos infindáveis estratos do solo , mas a canção não incluía a impetuosidade da morte.
A lengalenga que não referia o estrato dos ossos:
"Estrato onde se encontram, a sete palmos de terra, todos os ossos de todas pessoas do mundo.Porque todas as pessoas do mundo acabam por morrer - violentamente ou de forma natural. E os ossos de todas as pessoas do mundo acabam debaixo da terra. Esta é, de resto, uma das principais funções do solo: acolher os ossos cansados dos seres humanos que morrem. Segundo sim, segundo não.

Há muitas coisas que não se deixam entender, jamais. Nem na vitrine de um Museu, nem nas estantes da maior Biblioteca do Mundo.
Nem no abismo do nosso próprio coração.

Sob pena de desvalorizar o único sentido preciso da vida: a morte.

(A morte de mãos dadas, na voluptuosidade de um baloiço, no Parque Infantil ao lado de nossa casa, de mãos dadas com o amor. De mãos dadas com um poema de Edgar Allan Poe.)

(A morte sentada da sanita da nossa casa de banho, a ler a "Visão" - na página certeira da crónica do Lobo Antunes - e sorrir-nos e a acenar-nos, com as suas calças de morte entre os joelhos e os azulejos do chão).

(A morte olhar-nos de forma apreensiva, por cima dos seus óculos de morte, quando surge o inevitável debate sobre a economia nacional, ao lanche).

(A morte estilhaçada no pára-brisas do nosso carro, perfeitamente esventrada, perfeitamente espalhada pelo vidro inteirinho, na pressa da auto-estrada que leva ao Céu.)

A morte é um insecto gigante.

7.2.07

Os meus ossos são os ossos de um corpo com ossos lá dentro

Um homem sem braços a descer a calçada.
O barulho seco de um cadáver a rebolar pela encosta florida.

Bom Dia! É Primavera.

13.9.05

As minhas fotografias...

...andam espalhadas pela net, em meia dúzia de sites. Hoje deixo-vos um deles.
A minha galeria no olhares.com (em permanente construção) pode ser vista aqui.

9.9.05

Fado Maior.

O Fado embala-me a alma.

4.9.05

Calçada



(Santa Maria, Covilhã)

Esquecimento

25.8.05

4h45 da manhã

Viviam os três na casa. Eles os dois e a arma. Embora a tivesse visto apenas meia dúzia de vezes, ela lá estava, escondida no guarda-fatos do abafado quarto de casal. E às vezes, durante a noite, quando o som dos corpos se misturava com o ruidoso clic da pequena fechadura do armário, sabia-se, desde logo, que Ela iria ver a luz da noite e do candeeiro velhinho, uma das poucas peças que sobraram das constantes mudanças de casa.
Nas primeiras vezes, rezava à santa e, quando Ela voltava para o reino da escuridão e os corpos ficavam a salvo, costumava adormecer com o coração a explodir de amor pelos céus, que a haviam salvo da vergonha, uma vez mais. Porém, com o tempo, o peito foi-se habituando às investidas do reino das trevas e mesmo nas horas de maior aflição permanecia no corpo a estranha sensação de que haveria de correr tudo bem, uma vez mais, e a arma voltaria a dormitar junto da roupa, no pesado armário de madeira.
Até que um dia, aconteceu. E nem teve tempo para perceber se o som seco que se fez ouvir a meio da noite, fazendo tremer o relógio do velho campanário de pedra da aldeia, proveio da arma ou da sua própria cabeça, que explodira entretanto. Às vezes, quando era criança, tinha medo que a casa ruísse. Com o tempo, instalou-se na parede do quarto, mesmo junto à janela, uma fenda muito pequena que lhe ocupou os pensamentos das noites desse verão, sob a forma de pesadelos. Também o céu lhe poderia cair em cima da cabeça a qualquer instante. Estava longe de imaginar, nesses anos, que o inferno partia dos corpos e não dos céus.

24.8.05

Virginia Woolf

De tempos a tempos, perco-me numa canção. Desta vez, a musiquinha que me ocupa as horas de tédio é "Out in the Park", da Sarah Slean. Tem pedacinhos de Fionna Apple e Tori Amos, o que aparentemente pode justificar a preferência.
Hoje é dia de enxaqueca e de deslocamento em relação ao mundo. Momento para perceber que os headphones são, em definitivo, a melhor invenção de sempre.
Melhores momentos virão, certamente, como o dia em que o meu livrinho de contos chegar finalmente às bancas ou a hora em que voltarei a fazer rádio.

23.8.05

E a canção não é da Suzanne Vega.

Havia uma canção da Suzanne Vega, “The Long Voyage”, e eu embrenhada em versos e em rascunhos medíocres num caderno negro Moleskine que agora anda perdido nas prateleiras das minhas estantes. A designação de "menina das letras" pode justificar a minha passagem pelo mundo e tornar o sentimento de estranheza (causado por um fuso horário que nunca existiu) no princípio da menor incerteza possível. O livro de contos há-de sair em breve, prometo-te. Até lá, deixo-te o meu coração povoado de linhas e de estórias que, para já, não têm rumo.

14.8.05

Restos de um poema de uma canção sem nome.

A realidade e, em seguida, o estado do tempo.

3.8.05

Excertos de uma carta a um amigo.

I

Os passos das freiras, pela manhã, nos corredores gigantes e frios anunciavam a alvorada e faziam estremecer as meninas, ainda nos seus leitos pálidos,absortas em pensamentos que Jesus de certo desaprovaria, mesmo no alto do seu esplendor e complacência de santo. Era Pecado e um arrepio de frio cortava-lhes o corpo de uma vez só. O medo surge materializado, pela primeira vez, no murmúrio implacável e poderoso do Pecado. De noite, as horas eram de sobressalto, porque os santos saíam do altar e dos quadros pendurados nas paredes húmidas e dançavam ao som de cânticos mórbidos que, muito devagar, iam anunciando o inferno. Nas noites de Inverno, ouvia-se o crepitar das chamas, mesmo por debaixo do soalho de madeira e as meninas abraçavam-se ao terço, a rezar.

II

O medo corrói-nos os olhos e o coração, a pouco e pouco, (...). Os anos são medidos, não raras vezes, pela contagem de membros e talentos que ainda nos restam e pelo número de amputações que o medo já nos causou. Somos esperas silenciosas e o medo alimenta-se de esperas e de amores desfeitos. Com o passar dos anos, o medo carcome-nos o coração e, no seu lugar, instaura uma caixa vazia, onde ressoam apenas pequenas batidas mecânicas e frias que anunciam que, para infelicidade da alma, o corpo ainda vive. O medo come diariamente as nossas quedas vertiginosas, as dores de cabeça constantes, o cansaço e ódio pelo passar silencioso das horas. (...) Somos filhos do medo, submersos irremediavelmente nas suas raízes que, há muito, se cravam sob a nossa pele. Temos horror ao vazio e ao silêncio porque quando nada existe ouvimos apenas o tic-tac do relógio do medo que anuncia que o Juízo Final – o dia em que o medo tomará conta do nosso corpo - se aproxima a passos largos.

III
O medo nasce da estúpida inclinação natural que o homem tem para o amor. Infeliz aquele que ama com todas as suas entranhas, porque rapidamente ficará sem elas. (...) O medo é, portanto, filho do amor e tem mãos de gigante. (...)

IV
(...)

V
Ainda te consegues lembrar dos primeiros instantes de uma paixão, abstraindo-te do amor que agora sentes?(...)

VI
Esquece os passos das freiras. Entra na casa antiga. Ouve com atenção o som dos teus passos misturado com o teu próprio respirar, cada vez mais pesado. Sem medo, abre as grandes portas que encerram as enormes janelas e afasta, num gesto só, as pesadas cortinas de veludo que ali jazem há décadas. É muito provável que a luz te possa cegar. Perde-se sempre o hábito às coisas, aceita o destino com naturalidade. Porém, no meio da enfermidade, o medo vai morrendo com o reflexo do sol, como se de uma bactéria húmida se tratasse. É um processo lento, meu amigo, mas a pouco e pouco hás-de recuperar a visão, outra vez. Não entres em pânico. Os olhos estão apenas a habituar-se à claridade.

(...)
02 de Agosto de 2005

2.8.05

Um fragmento de "Lunar", um conto de "Antídoto"

«Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Passou muito
tempo desde que me deixaste sozinho entre as sombras que se confundiam
com a noite. Noutras noites, olhámos para a lua. Nesta noite, não olhámos
para a lua. Noutras noites, olhámos para a lua e enchemo-nos de desejos.
Nesta noite, não olhámos para a lua e sofremos. Noutras noites, olhámos para a lua e não sabíamos o que era sofrer. Escuridão e esperança. Na lua,
víamos mais do que o reflexo daquilo que queríamos inventar: os nossos
sonhos. Víamos um futuro que era maior do que os nossos sonhos e que nos
envolvia e que nos puxava para dentro de si. Nós sabíamos que nos esperava
algo muito maior do que aquilo com que podíamos sonhar. Estávamos
enganados. Aqui, sobre estas pedras que brilham, sob estas lágrimas no meu
rosto, sei que nos enganámos e sei a lâmina infinita de uma faca.» José Luís Peixoto

31.7.05

Quimera. É longa a espera.

Dia de reler a minha obra favorita de Peter Handke, que não ocupa um lugar de destaque na criação literária do austríaco, mas que me toca de maneira sempre singular. Refiro-me a "Poema à duração". O livro perdeu-se, numa altura em que andava embevecida pelas linhas de "Kaspar". Desconfio que tenha caído pelo buraco do elevador, numa das minhas incontáveis mudanças de casa. O Rui Sousa, amigo de tantas horas, fez o favor de me oferecer um novo exemplar, há um ano atrás. Faltava-lhe, porém, as imprescindíveis anotações que o anterior tinha. Ainda assim, permanece num lugar de destaque na minha estante e, volta e meia, releio-lhe os contornos.
É sempre agradável perder alguns minutos para relembrar as coisas de que gostamos. Eu, por cá, gosto da Agustina, do José Luís Peixosto, do Lobo Antunes, do álbum "Movimento", da Áustria, de exercícios nocturnos de escrita e de fotografia. Talvez sejam estes interesses que nos despertem para a vida e nos encaminhem para novos sentimentos, que, adivinho, estão prestes a chegar.
Em conversa com o meu querido Joaquim, relembrei a doce ambiência de Six Feet Under e do prazer que sinto em poder traçar os perfis dos personagens e das situações. Relembrei, ainda, os tempos das reportagens para a rádio, naquele que foi, talvez, o melhor Verão de sempre. Já lá vão cinco ou seis anos, nem sei precisar. É pena que, por vezes, esqueçamos os momentos de "duração" que a vida nos proporciona.
Ontem percebi, depois de meses de reflexão, que não há pachorra para a Virginia Woolf. Continua, no entanto, a interessar-me o seu percurso pessoal. As pessoas valem pelo que valem. Tenho-me esforçado por recuperar o prazer de uma grande conversa. E é assim que nos vamos cruzando com seres humanos extraordinários.

30.7.05

Parabéns...

...à rádio local mais antiga do país. A Altitude, pois claro! :)
Vinha a ouvir-te, enquanto dirigia para o trabalho.
Passaram seis anos, mas o afecto continua.

28.7.05

Ontem foi dia de Secret Window



"I killed a mirror.
And my shower door. "


(Mort)






Em lista de espera:
- Aaltra
- Feux Rouges (Sinais Vermelhos)
- A Good Woman

Chuchurumel.

Façam uma visita a este Castelo.

Nuvens de Prata...

...e uma melancolia outonal.

27.7.05

Calma.

Começo, finalmente, a habituar-me às terríveis terças-feiras de fecho de edição. Apesar de chegar a casa exausta, não consigo disfarçar um sorriso e a mais plena satisfação por ter visto nascer mais um número do jornal. Acredito, cada vez mais, que este é o caminho certo. Sinto-me a crescer de forma natural e cada trabalho que faço constitui, para mim, uma nova surpresa que me fez evoluir, notoriamente, um bocadinho mais. Quando saímos da redacção, e já no caminho para a Covilhã,a noite deu em chuva e aqueceu-me a alma. Lembrei-me do inferno de há alguns dias atrás e senti-me bem ao perceber, desta vez, o cheiro da terra molhada ao invés do fumo e da desolação. Lembrei-me do pequeno Gabriel e descobri que, afinal, há muitos motivos para sorrir e enfrentar os medos.
Estou orgulhosa da capa desta semana da edição da Covilhã. Vejam e... comentem, pois claro! Hoje estive a folhear uma edição de (se a memória não me falha) Setembro de 2001, altura em que o jornal recebeu o prémio "Gazeta de Jornalismo" - Imprensa Regional. Fiquei, obviamente, orgulhosa e tenho pena pelo facto de as edições dessa altura não estarem disponíveis no site do jornal, para vos mostrar um pouquinho da emoção sentida lá para os lados da redacção e nas Lisboas, aquando da entrega do galardão. Ainda assim, fica a lembrança. Hoje vou adormecer com um vento muito doce a sussurrar nos vidros da janela. Também isso me traz à lembrança somente coisas positivas, calma e uma boa dose de serenidade. Os fantasmas, hoje, dormem ao relento.

22.7.05

Só conseguimos sair de Casegas por volta das três da manhã, sob escolta da GNR. As três vias de acesso (Paul, Ourondo e Sobral de S. Miguel) foram cortadas.Em perigo estiveram um Lar de Idosos e várias habitações. Até às oito da noite só se encontrava no local um carro dos Bombeiros de Penamacor, com cinco homens. Só por volta das nove e pouco acorreu à aldeia a coluna de Évora. Por essa altura, o pânico e o medo já se tinham generalizado. A Protecção Civil, a Associação de Produtores Florestais do Paúl, a Aliança Florestal, a GNR e os SMAS não chegaram para tantos problemas. Regressámos com a Paula Henriques, da Aliança Florestal, atrás da GNR, enquanto as bermas da estrada se desfaziam em chamas. Já em casa, recebi uma mensagem de um residente, que anunciava que o fogo teria aberto duas novas frentes. A execução dos bombeiros terá sido dificultada pela falta de acessos e os meios de que dispunham foram, em todas as situações, manifestamente insuficientes. Nada de novo, afinal.

Foi assim, ontem...




21.7.05

Fruto de uma timidez adorável, a minha querida Fátima Cordeiro enviou-me, por e-mail, um comentário ao post "Este zimbro que nos aquece a alma". Não o publicarei aqui, a seu pedido. Porém, não posso deixar passar a oportunidade de manifestar publicamente a minha admiração pelas linhas que a minha amiga escreve. A Fátima é um ser humano gigante, cheio de ideias a fervilhar, inteligentíssimo e de grande valor. Eu espero pelo livro que, sei, não há-de tardar assim tanto, há-de valer a pena e fazer todo o sentido.

O Inferno.

A aldeia dos Trigais foi, há algumas horas atrás, evacuada. A população abrigou-se na igreja da terra e, em conjunto, esperou que o fogo atravessasse a aldeia, num misto de horror e paciência. A essa hora, eu percorria a estrada das Pedras Lavradas, por entre um mar de fumo. Na berma, centenas de carros e de rostos pesados iam informando os curiosos. Quatro frentes de incêndio. Mais de cem quilómetros a arder. Os bombeiros perderam a noção da dimensão das chamas, que atingem 40 metros em alguns locais. Dizem que é o maior fogo de sempre. Um frenesim constante de carros. Curiosos uns, desesperados outros. O medo e o fascínio. Os familiares das povoações ao lado. Esperar que arda. De manhã, chegarão mais meios. Saber onde cortaram as estradas. Telemóveis em punho e conversas de café, no meio da escuridão. Um dia não são dias e esta noite é diferente. Os meios não chegam para assegurar a protecção de tantas aldeias espalhadas pelas encostas vertiginosas das imensas serranias.

Os incêndios fazem parte da nossa cultura. Muito embora pese o mediatismo súbito que a questão adquiriu de há uns três anos a esta parte, crescemos a ouvir falar das chamas que consomem as matas de quem ninguém quer saber.Estivemos lá, por infortúnio ou casualidade.

Subitamente, a angústia das populações mais recônditas do país, na maior parte das vezes as mais atingidas, começou a ser partilhada em directo para Portugal inteirinho, como se se tratasse aqui de verdadeiros trabalhos de reportagem de guerra. O método utilizado e a adrenalina que os repórteres querem fazer passar é, em tudo, semelhante. Porém, o maior ponto comum que existe entre o espectáculo do fogo, fascinante e tenebroso, e o horror da guerra que nos chega de outras partes do globo é, em absoluto, a gradual indiferença que vamos desenvolvendo em relação ao que nos chega pelos ecrãs de televisão. São inúmeras as teorias dos média que nos falam desta (dis)função narcotisante, que nos remete para o papel de espectadores passivos de uma realidade distante do conforto do nosso sofá.

Um amigo, relutante em nos acompanhar pela estrada, dizia:"Já estou tão habituado a estas coisas, vão vocês...", num misto de ironia e sincero desabafo. Eu confesso que também me começam a ser indiferentes os relatos das chamas noutras partes do país, mesmo que a atrocidade do fogo desperte em mim especial revolta. No ano passado, em função de a zona envolvente à minha aldeia ter ardido no ano anterior (geralmente, os incêndios acontecem ano-sim-ano-não, ao sabor do crescimento do mato), mantive-me distante e indiferente, enquanto o país era polvilhado por uma onda de inferno.

Hoje, os locais da minha infância, na Beira Baixa, estão a arder. Muitos deles, faziam parte de lendas e nem os cheguei a conhecer na sua viçosidade e esplendor. Ficarão, certamente, guardados no imaginário complicado e místico que são as minhas memórias. Talvez por tudo isto, agravadando-se a situação pela preocupação natural com amigos e familiares, despertei para a realidade dos incêndios anuais, meia ensonada e verdadeiramente sobressaltada.

O problema dos fogos é demasido complexo e possui demasiadas "frentes" para que possa ser combatido de uma vez só. Não sou dos que acredita, empiricamente, nas teorias da conspiração dos fogos postos, pelo menos na grande maioria das vezes. Todos sabemos o que um simples vidro exposto ao sol numa altura de grandes temperaturas pode desencadear. Estamos, sim, perante um grave problema de mentalidades, em que se acredita no pior cenário humano possível. Providenciar, à semelhança dos países ditos civilizados, a limpeza das matas nacionais não é tarefa difícil. Gastamos dez vezes mais em meios de terreno. Os guardas florestais são uns velhinhos simpáticos, reformados, que viram a sua profissão entrar em extinção.Não há profissionalização dos bombeiros. Os meios que usam são obsoletos. Não há uma cultura de prevenção.Os incêndios são mediatizados, exercendo um fascínio sobre as massas, que se agitam perante tamanho acontecimento. A juventude está-se nas tintas.Pegar numa enxada de vez em quando e dar uma "mãozinha" pode ser perigoso, como se diz, mas asseguro-vos que resulta.O que ninguém explica ao país é que grande parte dos incêndios, pelo menos no centro do país, são combatidos com o suor das populações.


Os incêndios em Portugal são, acima de tudo, o resultado de um país que se diz vanguardista e que tem vergonha das suas raízes. Os campos, antigamente cultivados, são agora deixados ao desleixo, afinal há coisas que parecem mal e as aldeias são destinos turísticos agradáveis, porque existem por lá senhoras vestidas de preto a cultivar alguns campos. Se querem mesmo saber, cada vez que ouço uma sirene de bombeiros, parece que pressinto as vozes dos mortos a chorar.


Na minha infância e adolescência, convivi de perto com os incêndios de Verão. Isto, numa altura em que os fogos tinham direito a um espaço de meio minuto nos telejornais e os jornalistas ainda se enganavam nos nomes das terras mais pequenas e longínquas.


Ao início da tarde, sabia-se, desde logo, a que horas o fogo havia de chegar, em função do estado do dia. Os homens da terra juntavam-se em bandos enormes (recordo as calças velhas do meu pai, guardadas quase de propósito para o efeito) e, juntos, encaminhavam-se na direcção das chamas, a lavrar numa qualquer terriola ali por perto. As mulheres ficavam em casa, meias atordoadas. Começavam os preparativos. Tanques de água, magueiras, baldes, pás, enxadas, merendas para os bombeiros e orações. Ao entardecer, as crianças eram encarceradas em casa. Por essa altura, seria suposto deixar de existir telefone. Divertia-me o som constante do outro lado da linha. Sabia de cor as horas até poder voltar a ouvir a próxima interrupção no sinal de linha. Por essa altura, o fogo já assumia a forma de clarão. Entretanto, os homens já tinham chegado. Juntavam-se aos bombeiros, vinham pessoas que eu nunca tinha visto e começava a longa espera. Cavavam-se fossos à volta da aldeia, num espectáculo medieval. As sirenes dos bombeiros mantinham, propositadamente, a população acordada. As mulheres, embrulhadas em xailes pretos, observavam.Normalmente, as chamas chegavam do cemitério, a partir de onde descia uma vertiginosa colina até ao vale da linha férrea. O fogo chegava sempre a passos largos, adquirindo velocidades estonteantes e era bonito.A encosta gémea, a seguir ao vale, enchia-se de vermelho vivo a crespitar. As tonalidades adquiriam maior diversidade consoante o tipo de mato consumido.As mais bonitas aconteciam nos castanheiros, cujos ramos se tornavam incandescentes. O fogo chegava sempre à aldeia durante a noite. De manhã, exaustos, os corpos repousavam nos leitos das casinhas sossegadas e, até ao próximo Verão, salvas.Durante o dia, ninguém frequentava o café ou as ruas da aldeia.Muitas vezes, reacendiam-se pequenos focos nas zonas ardidas que eram facilmente identificáveis pela maior quantidade de fumo libertada.A própria população tratava desses acontecimentos, com grande mestria e saber. Com os anos, as gentes aprendem as manhas das chamas.Um dia, alguém se lembrou de dizer que a pirotecnia das festas populares seria responsável pelo desencadear de alguns incêndios. Eu lembro-me de acontecerem alguns problemas, que a população resolvia logo ali, em função de conhecer o terreno.A partir de determinada altura, os bombeiros ficavam de plantão nas aldeias quando aconteciam os rebentamentos.Desde há algum tempo para cá, acabaram-se os foguetes.Eu morri um bocadinho, por nunca mais acordar com as estrondosas alvoradas que anunciavam que o dia era de festa e que o meu vestido seria o mais bonito da aldeia.

O que é certo é que, como seria de esperar, o inferno continua. E há-de continuar, até que se entenda que aquilo que efectivamente está a arder são as nossas mentes tacanhas e de campónios reprimidos.Urgem medidas concretas, de prevenção, inteligentes.

Há uns anos, um moço da terra deitou o fogo e confessou o acto, arrependido.Depois das diligências estarem concluídas, esteve preso um mês.Quando entrava na aldeia, já em Outubro, foi supreendido pela população que o ameaçou de morte.Nunca mais, que se saiba, cometeu tamanha falha. É importante que se entenda que o fascínio pelos incêndios é uma doença do foro psicológico que requere tratamento adequado.Ou isso ou um bom par de lambadas na cara.


Também os bombeiros merecem melhor tratamento.Menos senso comum e mais pacotes de leite poderiam ser úteis em situações difíceis. A lição maior que todos podemos tirar deste barbecue gigante é que se deve aprender com os erros. A pouco e pouco estamos a perder a nossa identidade, os nossos lugares de infância, a nossa memória. Tudo isto, meus amigos, apenas por mesquinhez e mentalidades minúsculas.

19.7.05

Este Zimbro que nos aquece a alma

Tenho perdido, nos últimos tempos, o grande entusiasmo que sempre tive pelos livros. O motivo, tenho-o dito com frequência, prende-se com a falta de qualidade da maioria das obras que me têm vindo parar às mãos. Não sou apologista da liberalização das editoras. Subitamente, parece que se publica qualquer texto, sem olhar à pequenez de horizontes e à falta de talento que prolifera por aí.
Porém, hoje, fruto de uma grande coincidência, veio-me parar às mãos uma obra extraordinária, do Artur Aleixo, de quem só conhecia os trabalhos de pintura. A obra de que vos falo chama-se “Este Zimbro que nos aquece a alma” e reúne trabalhos de pintura e de poesia de grande qualidade.

Dexo-vos a poesia que inaugura as páginas do livro:



“... à minha frente, vales desvairados de mil cores,
numa primavera que irrompe por socalcos
de pinheiros, arbustos rasteiros e uma música
leve que os agita num infinito de tempos
e espaços de serenidade sem fim.

Afasto as nuvens, procuro o azul do céu,
e, no castanho húmido das montanhas, a
floresta densa do zimbro verde, escuro,
estendida pelas paredes geométricas
do teu corpo, pleno de frio invernio
que orla o meu desejo de ti.

Brancas montanhas, de brancos contidos nos
covões da tua vitalidade, neves perenes
salpicadas do negro dos teus vales profundos,
absintos verdes que me levam ao teu
tempo escasso, retraído pelos ventos
do preconceito do amor.

No teu corpo, Estrela, há uma alma a mais,
na tua respiração há um ar grave, pesado,
do momento de estar aí na dureza das pedras,
nos seios da natureza, no cheiro do orvalho
(transpiração da tua terra fria) no intervalo dos
mundos (das tuas montanhas, do meu céu).

Em ti, Estrela, tudo flutua à minha volta.
O silêncio do ponto mais alto é apoteose
do amor, quando teus aromas se espalham
e eu chego atrasado ou adormeço,
nos lugares da paixão.

Amanhã, com o gelo quebrado, o teu zimbro
romperá rasteiro sobre mim, os teus frutos azuis,
arborescentes, serão meus no canto dos lábios
sedentos de um zimbro quente,
como quentes e breves são as noites
quando chegamos às estrelas.

Afasto as nuvens, sopro os ventos e, aí
está a tua passagem livre no glaciar
profundo do teu leito aberto pelos silêncios
dos lugares que encantam a vida.”
Artur Aleixo é Professor de Filosofia e é natural do Peso (Covilhã). Muito gostava de vos poder mostrar deste pequeno livro extraordinário, a começar pelas ilustrações, que são quadros do autor. Através das linhas com que os "ilustra", traz-me à lembrança pedaços de Eugénio de Andrade e Mário Rui de Oliveira.
Aproveito para vos dar a novidade, que não vem nada a propósito, mas já sou tia. O pequeno Gabriel nasceu este Sábado.

16.7.05

Às vezes, quando me deito, o meu pensamento constrói frases e pessoas sem sentido.

Por fim, a porra da verdade

Velhos. Estamos todos a ficar velhos. Mais do que velhos. Velhotes. Ternurentos, inquietos e um pouco mais sabidos, a lutar, todos nós, contra as primeiras rugas que surgem nos nossos olhos cansados. À mesa recordamos os anos de nascimento das pessoas conhecidas e lamentamos o passar do tempo. E nada mais prazenteiro há, todos sabemos, do que recordar as velhas tropelias de infância e comparar, em jeito de competição, as rebeldias de outrora.

Silogismo do cansaço

O som da noite
Versos ocultos. Quimera.
Jogo
Sangue
Os dentes.
Rasgo palavras.
Por quanto quiseres.

De que vale saberes escrever se nunca beijei um verso teu com o nome da rosa?
Noite feita. Desfeita. Quieta. Se eu durmo inquieta.
Nas linhas oleosas.
A encosta da serra. Julga-me o teu julgamento, dos olhos feridos.
Não jorram mais pétalas dessa rosa.

15.7.05

O fiasco e as diferenças

A ida a Linhares foi um fiasco. Ainda bem que a Mónica acabou não poder ir lá ter. Por certo, ficaria desiludida com a meia dúzia (literal) de parapentistas que se encontravam no local. A visita serviu, porém, para relembrar que toda aquela zona em redor da aldeia histórica tem um não-sei-quê de misticismo que cria uma sensação de formigueiro agradável na alma. De manhã, a visita foi à Castanheira, onde tive contacto com a Associação Juventude Activa. Brevemente, o grupo terá uma página on-line. Terei todo o gosto em partilhá-la com os meus escassos, mas atentos leitores. Esta Associação tem desenvolvido um trabalho exemplar no sentido de fixar a população e, sobretudo, os jovens naquela aldeia, através da criação de uma dinâmica cultural interessantíssima e de qualidade e da aposta em infra-estruturas e equipamentos que melhorem a qualidade de vida da população local.



Ultimamente, quando me perguntam quais são as principais diferenças entre a Guarda e a Covilhã, respondo sempre: Na Guarda, as pessoas são menos irritadas e mais civilizadas a conduzir. Acredito que a culpa advém do facto de não existirem tantos semáforos, que, vendo bem as coisas, destabilizam os nervos de qualquer indivíduo normal. A outra diferença é que na Guarda qualquer pessoa pode dar-se ao luxo de lanchar numa pastelaria decente, por ser minimamente acessível. Na pastelaria em frente ao jornal, pago 1'30 euros por um apetetitoso bolo de noz e uma galão à maneira. Na Covilhã, com a ladroagem que por lá anda, esse dinheiro daria para um mísero bolito, quase a cheirar a bolor. Na verdade, por terras da lã e da neve é um luxo fazer um lanchezinho fora de casa.

14.7.05

Aproveitei a hora de almoço para uma visita à minha professora pimária. A D. Alcina continua a ser a velhinha mais doce e bela que conheço.

8.7.05

Trabalhos extraordinários.

"As fotografias de Armindo Dias encerram uma narrativa"
(in Revista Periférica, número 13, Primavera 2005)

6.7.05

A Dicotomia Existencial

Anteontem fui buscar a lista de mortes da semana passada a uma das Funerárias da cidade, para o Obituário do jornal que, de resto, é uma invenção nova para dar aos leitores. Com alguma minúcia e paciência, consegui resumir toda a existência de mais de meia dúzia de pessoas em cerca de cinco linhas, cada uma. Nos próprios registos da Agência, só constam o nome, a idade, naturalidade, estado civil e local de falecimento dos mortos. A brevidade escandalosa da Vida é resumida a meia dúzia de parâmetros, que interessa vender. Em alguns casos, eram referidos o número de filhos dos falecidos e, mais importante ainda, se o morto deixou bens. Na verdade, devo dizer que tinha imaginado uma visita mais ao estilo "Six Feet Under", em que para além de existir um par de manos com extremamente bom aspecto, há toda uma melancolia doce a pairar no cenário. Meia desiludida, acabei por deixar lá ficar os óculos, mesmo ao pé da enorme lista de falecidos, creio que dos últimos meses.De manhã, quando os fui buscar, pareciam tresandar àquele cheiro pesado, meio adocicado a flores e a carne, característico de todas as Funerárias.

Com nova Vida está o jornal, que aposta, agora, numa imagem diferente, com colaboradores novos. Esta semana marcará o pontapé de saída da edição separada da Covilhã. Um projecto ambicioso que, acredito, não tardará em dar frutos.

3.7.05


Digam lá se ela não é a mulher mais interessante do mundo?!
(tirei daqui)

Porque me cansei de esperar por quem não vem...

...abro os braços e o coração a todas as coisas boas que hão-de vir.

2.7.05

Movimento. A quimera.

Existem pequenos pedaços de terra onde o Inferno não chega.

26.6.05

Esquece tudo o que te disse

A RTP fez o favor de mostrar a comédia de costumes do António Ferreira, embora tenha sido tarde e a más horas. "Esquece tudo o que te disse" foi inúmeras vezes apelidado de "Um filme português sem o 'português' no fim". Quanto a mim, a película do realizador de "Respirar debaixo de água" marcou um ponto de viragem no cinema em Portugal. Por ter levado tanta gente às salas de cinema, abriu caminho para "Os Imortais" (grande papel de Nicolau Breyner) e "O Milagre Segundo Salomé".

Não há filmes que interessem, ultimamente. É o marasmo.

25.6.05

O drama... o horror.... a tragédia

Que peninha que nós, "os portugueses", temos do Sr. Albarran! Cutchi, Cutchi!

23.6.05

Parabéns...

... à Rádio F, que faz hoje 15 anos. Disse o Director: "Apesar da crise, a Rádio continua a ser uma emissora de referência". Claro. Existem as rádios de referência e as rádio-tablóides.

22.6.05

A visitar

Encontrei, muito por acaso, um projecto interessantíssimo, com sede em Vila Soeiro, a 15 quilómetros da Guarda. Qualquer dia, reservo uma tarde para um passeio. Até lá, vou visitando as principais linhas do projecto aqui .

Balanço

Um jornal é um projecto sempre em construção, permanentemente no fio da navalha. É pena, no entanto, que muitas publicações não passem do registo de meras agendas de eventos, mais ou menos fidedignas, mais ou menos independentes.

21.6.05

Para quando a canonização?

A reportagem que a TVI exibiu há algumas semanas atrás, intitulada "O Pastorinho", (atente-se na alusão a Fátima) é o exemplo mais curto, claro e conciso (!) da profunda hipocrisia dos média relativamente à cultura medíocre que vivemos em Portugal. Esta noite, o referido canal televisivo voltou à carga, polvilhando os lares portugueses com mais uma dose, em tudo cáustica e difícil de digerir, da já familiar pseudo- generosidade que prolifera por aí (atente-se na expressão de desprezo). Desta vez, tratou-se de um espectáculo degradante e ofensivo do princípio ao fim, onde ficou bem clara, em todos os momentos, a falta de horizontes de um país sem perspectivas de futuro, onde as aspirações pessoais surgem, não com pouca frequência, reduzidas a uma caixa de roupa de marca (pois claro!) e um passeio à beira mar, patrocinado por uma outra marca qualquer.
O Pastorinho que, bucolicamente guardava o gado num lugar distante de Trás-os-Montes, é hoje e por breves minutos, elevado à categoria de herói nacional, como se todos nós nos orgulhássemos de um Portugal desertificado, ridículo e onde a cultura é uma miragem há muito esquecida.
E como os Pastorinhos são, afinal, três, não custa nada candidatar-me à próxima série desta saga que promete comover até os corações dos mais insensíveis. Estão, assim, e a partir deste momento, abertas as vagas para a selecção do terceiro elemento (pastoral!) da grande obra de caridade levada a cabo por um dos mais responsáveis e preocupados órgãos de comunicação social do nosso país. Isto sim, é o verdadeiro Serviço Público, meus senhores(!).

17.6.05

Os meus pedacinhos de passado aparecem-me envoltos em fitas cinzentas. Chama-se amor e parece que não há mais nada que interesse. Esta noite sonhei que era amada. Acordei com uma sensação de estranheza absurda. Perde-se sempre o hábito às coisas.

Nada pode magoar mais do que pedacinhos de passado envoltos em fitas coloridas

Numa altura em que tudo parece ruir, uma das poucas coisas que acalma é pôr o "Movimento" a tocar. Talvez seja, de facto, como descobrir bocadinhos de passado envolvidos em fitas coloridas. Nunca me dei bem com mudanças. Adaptar-me é confuso. Ultimamente não existem versos a fluir, nem quando me deito. Parece que abro as mãos e não encontro mesmo nada. De noite, assaltam-me insónias e pensamentos difusos.
Estou sozinha e, admito, tenho muito medo. A vida complica-se a cada passo que se dá, a partir de determinada altura. É suposto ser assim, não é? Não sei que faça com o tempo, com as memórias de dias dias felizes, com a sensação desta vez pouco antecipada de abandono.
Não me é agradável descobrir bocadinhos de passado envolvidos em fitas coloridas. Se calhar, é por isso que o meu coração ameaça ruir a qualquer instante.
Em muitos momentos, gostava de encarar os dias com outra calma e conforto. Tenho medo, agora.
Já nem sei se da solidão ou do abandono.

4.6.05

Sinais Interiores de Riqueza

' Quando, em 25 de Dezembro de 1863, Victor Hugo escreveu, num dos seus cadernos:
" Sou um homem que pensa noutra coisa",
referia-se, é claro, a mim. Quando almoço com alguém, por exemplo, deixo um sorriso sentado no lugar e escapo-me, em bicos dos pés, para outra mesa do restaurante, a desenhar comboios e navios na toalha de papel, na esperança de partir, numa locomotiva ou num paquete de tinta, para longe de um mundo de saleiros, de garrafas de branco e de cabeças de pescada. Em pequeno, na época em que me tentavam ensinar o catecismo, tinha de Deus a ideia de um vertebrado gasoso: levei séculos a compreender que o vertebrado gasoso era eu.
O resultado disto é que observo os objectos do quotidiano com a estranheza do homem das cavernas; nunca fui capaz de mexer num vídeo, todas as manhãs me corto com a gilete, preencher um cheque é quase tão difícil como resolver um problema de torneiras do género "se um tanque tem 3 metros de lado, quanto tempo uma torneira que debita 7 decilitros por minuto", etc. Desesperei os instrutores, na tropa, a virar-me para eles, de espingarda carregada, perguntando:
- Como?
numa incompreesão sincera, e a surpreender-me de os ver atirarem-se para o chão berrando
- Desvia essa merda
numa angústia que ainda hoje não compreendo o motivo.
Talvez tenha herdado isto de um tio remoto, que num velório, espantado com a tristeza do viúvo, o consolou com uma palmadinha no ombro:
- Não penses mais na morte da bezerra.
Sou um homem que pensa noutra coisa, que tenta abrir a fechadura da porta com o cigarro e que fuma um molho de chaves por dia: se adoecer de cancro do pulmão será um canalisador a operar-me. As palavras grandiosas como Trabalho, Família, Dinheiro, atravessam-me sem me tocarem. Dá ideia que não sei viver com os que amo ou que rejeito o seu afecto: não é verdade. O que acontece é que, às vezes, enquanto me acariciam, estou a observar as cegonhas da mata do sótão da tia Madalena, ou na esplanada da Praia da Maçãs, ao lado do meu avô, a comer um sorvete de morango. E gosto das pessoas modestas porque os sinais interiores de riqueza me comovem. A propósito de sinais interiores de riqueza a semana passada, na consulta do Hospital Miguel Bombarda, vi uma mulher nova, de quarenta anos: nasceu-lhe um caroço no peito e o médico não a quia operar porque a doença já lhe atingia os ossos. Quimioterapia. Uma mulher bonita, inteligente. Disse-me
- Ainda gostava de viver mais algum tempo
e vai morrer daqui a nada. Depois sorriu e perguntou:
- Vou ficar melhor, não acha?
Ela sabia que não e sabia que eu sabia que não:
- Claro que melhora, disse eu. Está linda, sabe?
- Toda a gente me diz isso agora. Faço quarenta e um no mês que vem.
Trazia o vestido dos domingos, colar, anéis, um risco azul nas pálpebras. A enfermeira abriu a porta, espreitou, viu que eu não estava sozinho, desapareceu. E o sorriso:
- Se calhar ainda nos voltamos a ver.
E eu a apertar-lhe a mão:
- Se calhar.
Ao sair, até a maneira de andar era elegante. E então pensei:
- Ainda bem que sou um homem que pensa noutra coisa. Se não fosse um homem que pensa noutra coisa ia ter vontade de chorar.
De forma que no momento em que o doente seguinte entrou já me esquecera dela. Graças a Deus, já me esquecera dela... '

António Lobo Antunes
Tenho saudades do Pablo. Muito devagar, encostava o imenso pêlo branco no meu colo. Invariavelmente, qualquer conversa sobre responsabilidade conduz a pensamentos difusos e pequeninos. O tempo tem o poder de dissolver na memória os pedaços de harmonia que um dia fomos. No frenesim constante de que somos feitos, alheios ao passar das horas, tornamo-nos invisiveis aos nossos próprios olhos. Crescer é ter medo. E o medo, tantas vezes o disse, alimenta-se de esperas e incertezas. Não sei de que massa somos feitos. Sei apenas que nos fica na boca o sabor amargo dos sonhos das muitas infâncias que nunca chegaram a acontecer.

22.5.05

Um destes dia, dei por mim a pensar na velocidade absurda com que os dias teimam em passar. A serra tornou-se numa bússula, todas as manhãs, e hoje o céu acordou da cor do granito. Alguém me empresta um lápis colorido para pintar a ansiedade?

12.5.05

"tenho medo. de noite, quando não consigo dormir, a morte
ressuscita mortes. deitado sobre a cama, uma mão negra
desce do tecto para me tocar no peito. tenho medo. silêncio
e frio sobre o meu corpo. olho para dentro de mim e não
vejo nada. tenho medo. todos os que me chamam de dentro
da escuridão sabem que há uma casa com paredes antes
de mim, sabem que eu não sou aquele que ilumina o mundo.
tenho medo. quando não consigo dormir e prolongo as
noites, a culpa envolve-me de medo e frio, o silêncio diz-me para esperar, pois o descanso virá com a noite maior, a noite em que a manhã nunca chegará."



José Luís Peixoto."A Casa, A Escuridão"

11.5.05

Mar Adentro, Alejandro Aménabar

O Globo de Ouro e o Óscar para melhor filme estrangeiro fizeram de “Mar Adentro”, de Aménabar, um sucesso de bilheteira. Num primeiro olhar, apetece dizer que o realizador já merecia, há muito, o prémio da Academia, por “Abre los Ojos” (que deu origem ao sucesso hollywodesco “Vanilla Sky”) e “Los otros” (o filme com Nicole Kidman cujo final é, no mínimo, surpreendente). Poderia, deste modo, tratar-se de um mero prémio de consolação, bem ao jeito da Academia, depois da adaptação bem sucedida e rentável destes dois filmes do realizador espanhol à magia do cinema americano.
Porém, Aménabar surgiu com um filme algo complicado. Fala sobre a eutanásia, sobre o direito de viver com liberdade e morrer com dignidade. Um primeiro olhar sobre qualquer sinopse dir-nos-à que, na verdade, a temática presente em “Mar Adentro” é um tanto ou quanto vulgar. No entanto, o filme deu-nos a ver pequenos momentos de pormenor extremamente bem conseguidos, onde se conjugam elementos sonoros fortes (nota para a participação de Carlos Nuñez que, com Aménabar, se encarregou da banda sonora) com um argumento bastante bem conseguido e boas interpretações.
O desejo inabalável de abandonar a vida perante toda uma série de limitações físicas marca o percurso do protagonista, preso há quase 30 anos numa cama. Rámon Sampedro lamenta o próprio desejo de morrer e faz uso, em todos os momentos, de uma lucidez comovente.
Uma das cenas marcantes do filme, pontuada com um toque subtil de humor, e que poucos realizadores conseguiriam ilustrar de forma tão divertida, foi o encontro de Rámon com um padre que o visita, a fim de o convencer a escolher a vida. As diferenças ideológicas e religiosas são ridicularizadas por Aménabar, fazendo as personagens discutir à distância, uma vez que a cadeira de rodas do padre (também ele impedido de se mover) não conseguia passar pela escadaria que levava ao quarto do protagonista. Aliás, é neste tipo de ilustrações que Aménabar ganha pontos. Porque, como dizia no início, se o tema é vulgar, a forma de o abordar assume, em “Mar Adentro”, muitas maneiras diversificadas.
Embora não fazendo disso uma bandeira (há, apenas, uma nota discreta no ecrã, mesmo no final da película), a história de Rámon é, afinal, verídica. Durante anos, um sujeito espanhol, com o mesmo nome que o protagonista de “Mar Adentro”, tentou obter na Justiça o direito de morrer. Por fim, concebeu um plano para cometer o suicídio. A investigação aberta após a sua morte, em 1998, não chegou a nenhuma conclusão quanto aos responsáveis pelo seu desaparecimento. No final de contas, “Mar Adentro” funciona de forma exímia no sentido de nos forçar a uma análise interior que pode revelar-se impiedosa, cruel e surpreendente.
Apesar de tudo isto, existem muitos momentos em “Mar Adentro” a roçar o lugar-comum. Muitas das cenas obedecem a criteriosos clichés. No entanto, o filme acaba por nos tocar e por causar uma estranha impressão que cada um definirá individualmente, conforme a sua crença e as suas experiências.

17.2.05

Olhares indiscretos, nas janelas, observam os estudantes. Denunciam-lhe os movimentos. Invejosas, as gentes serranas arrastam os corpos para a esquadra. Os Agentes agradecem tanto movimento. Porque um dia não são dias. É preciso agitação e progresso. Como nos policiais. Hoje, as ruas ressacam do Natal. Os contentores de lixo rebentam de tantos micróbios. Restos de marisco, caixotes de brinquedos para os meninos. O vento agita papéis de embrulho pelo ar. Esta noite nevou na serra e cá em baixo sente-se o frio de um degelo anunciado. Não há vozes, não há estudantes para espiar. Expiam-se, então, pecados. Lembram-se os velhos tempos de consoadas em tudo fabris. Nas escadas da Boavista, não há poetas que possam alegrar-se com as luzes da paisagem, de Santo António à entrada do Fundão, junto à linha do horizonte. Sozinhos, no chão, restam as pontas dos cigarros que algum estudante enfastiado ali fumou.

Cidade Neve

A Covilhã serpenteia na encosta da Serra da Estrela. Debaixo das calçadas escuras e vertiginosas correm rios amorfos e de noite os lobos fazem cercos às luzes, escondidos no mato da serra.) Quando a claridade se esconde, as ruas tornam-se amarelas, de tão gastas pelo tempo. Virgens da lã e da neve entoam cantigas antigas, enquanto rodopiam sobre os teares mortos que jazem nas calçadas. (Todas as ruas têm fantasmas mudos de fiadeiras e pedras gastas. É ver desfilar os casarões dos ricos no cemitério, indiferentes ao novo olhar que o tempo trouxe à cidade.) De noite, nas ruas mais escondidas, chega-nos o cheiro a mofo das janelas que o vento partiu nas casas abandonadas. Apodrecem sedas, veludos e brocados dos enxovais das meninas nos salões e nos varandins. Sobrevivem as carquejas na encosta e o velhinho Miradouro a caminho das Penhas. Tristes, assistem ao lento apagar das serpentinas de luzes das grandes fábricas, enquanto a última Estrela da Serra agoniza.
As gentes desta terra afogam-se em fotografias de vestidos de chita e em álcool. As noites são passadas nas agonias das esplanadas, enquanto os artistas jazem quase moribundos nas ruas da cidade. Pedem esmola. Pedem voz. A Cultura é o nome que se respeita, mas que se afoga, porque antigamente havia o Café Montalto e as tertúlias dos poetas e dos políticos. Hoje sobrevivem pequenos gestos furtivos, como o toque pessoal que se dá às mãos quando se fuma. Há tanta gente louca a vadiar pelas ruas! Trazem o olhar sujo dos fumos das grandes fábricas. Trazem o passado enterrado nos bolsos vazios. Trazem a cor do dinheiro fundida nas mãos. Ficaram, para que lhes possamos fazer uma vénia, as cicatrizes nas mãos, obra dos teares, o desejo cego de parecer e um bago de arroz sobre a mesa do jantar.